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PUBLICAÇÕES DESDE 2014

943- Utilidade e útil (Parte 6)

Dentre as ocasiões de habitual tensão na beira do leito, destaca-se o momento em que o profissional da saúde apresenta ao paciente o planejamento de conduta. Ele  representa mais do que um encontro de oportunidade, significa fazer a oportunidade acontecer. Por isso, a intenção profissional precisa ter a aceitação da submissão pelo paciente capaz. Pedágio obrigatório que não aceita Sem parar… para esclarecimento.

De fato, o sentido do princípio da autonomia incluir a possibilidade do não consentimento para o absolutamente indicado beneficente em ciências da saúde é razão para graus de ansiedade profissional. Ela tem como matéria-prima a exigência para consigo mesmo de aplicação da recomendação alinhada ao senso de rsponsabilidade profissional, imposição que se transfere para o paciente sem garantia da resposta afirmativa.

Cenários podem se tornar bem dramáticos e, por isso, conjecturas de os evitar admitem certa tendência aliviadora para a superficialidade, um brevidade do momento da solicitação do consentimento ao paciente, uma projeção  de um sentido de obviedade da necessidade. Salvaguardas pela linguagem.

Esta perspectiva reducionista do espírito do princípio da autonomia- algo como fugir do diálogo- desestimula a intenção profissional pelo treinamento para vaivéns harmonizantes. É causa de o papel de agente esclarecedor do profissional da saúde ter se transmutado tão habitualmente em apenas papel, literalmente, entregue ao paciente com o aviso: o(a) senhor(a) precisa assinar aqui. Considerando o valor do real esclarecimento de alto impacto perante  grande desafagem de conhecimentos tecnocientíficos, a Bioética da Beira do leito lamenta o crescente testemunho da sua perceptível inexistência.

Perceptível inexistência é um oxímoro. Parece uma contradição lógica ou mesmo uma impossibilidade fática (quimera), mas ele cabe na apreciação crítica e ética na beira do leito. Aliás, a substantivação de verbos usuais na beira do leito por sufixos carrega um valor pedagógico para o reconhecimento da moralidade na conexão médico-paciente.

Ência é sufixo que muda a classe gramatical do verbo para substantivo de ação ou resultado da ação e mantém uma carga de interpretação com o verbo de que deriva. Este aspecto léxico tem o poder de determinar confusão acerca do que é potencialidade de efeito benéfico (crença) e do que é efetiva realização de beneficência na beira do leito (fé).

Quando falamos que a prudência recomenda aplicar beneficência cuja aderência pelo paciente é fator de influência positiva no prognóstico, não necessariamente estamos assegurando a atuação prudente com realização de benefício pelo comportamento aderente do paciente que influencia positivamente o prognóstico. Diferença entre razão matemática e lógica biológica.

O termo beneficência ao ser adotado do léxico existente na Bioética- não se incorporou como um recém-nascido neologismo, sendo que a sua introdução na língua portuguêsa data do século XV- para nomear um princípio trouxe consigo interpretações conhecidas- motivação para a adoção- a que se juntaram significados do novo contexto, incorporados e reforçados ao longo do uso. Belmont Convention CenterInexistente no Código de Nuremberg (1947) e na Declaração de Helsinki (1964), o termo beneficência foi acolhido no Relatório Belmont (1978) como obrigação de extremar possíveis benefícios. Falar de beneficência na área da saúde é pensar em utilidade e eficácia, um par sempre alvissareiro.

Bioamigo, preste atenção nas sentenças abaixo:

(A1) O princípio da beneficência reúne métodos de utilidade e eficácia.

(A2) O princípio da beneficência reúne métodos úteis e eficazes.

(B1) Sua doença tem cura.

(B2) Sua doença é curável.

Ambos duetos de sentenças podem ter seus enunciados apreciados como semelhantes ou distintos. Eles tendem à semelhança numa visão discursiva que costuma ser alinhada com um imediatismo da recepção e decodificação do dito. Por outro lado, eles ganham diferenças pela cuidadosa interpretação do significado das palavras, ou seja, a adjetivação empregada em (A2) e (B2) transporta um grau de indeterminação em relação a (A1) e (B1) nem sempre captado na oralidade.

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