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804- Valor da beneficência

Neste momento de terror por uma tóxica proteína coberta por lipídio que penetra no ser humano por três locais com órgãos dos sentidos, muda o código genético e agride células com potencial de provocar uma catástrofe inflamatória, agente etiológico globalizado recém escapado de alguma caixa de Pandora, o significado do princípio da beneficência resulta valorizado. O planeta pretende a beneficência além do sabão e do álcool em gel. Infelizmente, o enaltecimento da beneficência está acompanhado da frustração pelo predomínio do lado sombrio da insuficiência  da utilidade e de eficácia de possíveis redutores da disseminação. Pelo lado positivo, a beneficência pode contar com a respeitada expertise de fato acumulada e aplicável na assistência ventilatória em casos necessitados.

O médico identifica-se e se confunde com a beneficência. Desde Hipócrates (460 ac- 370 ac), ela caminhou lentamente e acelerou no decorrer do século XX. Em sua tarefa diária de lidar com o mal e com o bem, sentir este lado ético no diagnóstico, terapêutica e prevenção é matéria-prima valiosa para forjar a moralidade do seu profissionalismo. O potencial de punição ética pela eventualidade de ter lidado de modo imprudente/negligente com a beneficência só pesa de modo relativo para evitar comportamentos antiéticos.

Apenas em 1945, por ocasião do nosso terceiro código de ética médica, então nomeado como Código de Deontologia Médica, é que surgiram as Normas Fundamentais como A Medicina é uma profissão que tem por fim cuidar da saúde do homem, sem preocupações de ordem religiosa, racial, política ou social, e colaborar para a prevenção da doença, o aperfeiçoamento da espécie, a melhoria dos padrões de saúde e de vida da coletividade.  À época, o jovem médico que desejava ficar perfeitamente ajustado tinha a opção de recorrer à figura do professor-exemplo, que de certa forma alinhava-se ao hipocrático ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la.  Ele tinha uma Escola da especialidade e os jovens o seguiam- presencialmente, dando um like diretamente.

Assim, mais do que eu quero ser um bom médico, o jovem desejava se parecer com o mestre. Após um período de aprendizado e mesmo de parte ativa da equipe, cada um seguia o seu destino e construía sua identidade profissional. Os tempos são outros, a medicina baseada em evidências regula e de certa forma despersonaliza aquele aspecto do médico seguidor do mestre para adquirir conhecimentos e habilidades e concentra o diferencial do quem desejo ser, na atitude, razão para um valor da Bioética. Neste momento de pandemia, médicos em geral não conseguem estar o que mais desejariam ser, justamente pela falta de evidências específicas a respeito da beneficência.

O médico contemporâneo não se identifica com o profissionalismo apenas pelo acesso ao acervo da medicina e seu entendimento, mas, essencialmente, por sua condição de efetor, de fazer acontecer -planejamento e aplicação- o potencial de beneficência, a realização que é o que o atrai profunda e positivamente. Por isso, a importância da conscientização pelo médico acerca da superação de frustrações narcísicas (por exemplo, no não consentimento pelo paciente), da renúncia a fascínios dos conflitos de interesse, da clarificação das emoções, do estímulo da imaginação que faz conviver o presente mórbido com exercícios de potencialidades de mudanças, do desenvolvimento do intelecto por influências transdisciplinares. A mutualidade destes recursos desenvolve a espiral rumo à excelência para lidar com os caprichos da beira do leito.

Nos inevitáveis encontros entre o bem e o mal no ecossistema da beira do leito, é essencial prover confiança na própria capacidade profissional para estruturar condutas (com prudência) e para aplicar (zelo). A intuição do médico que o comportamento em relação a regras e valores não define a solução mas sustenta a segurança sobre a adequação do próprio desempenho em prol do domínio da situação clínica e dos sucessivos conflitos de várias naturezas, os seus internos em tomadas de decisão e os externos.

A Residência médica é a fase preparatória atual onde a intensa sucessão de casos precisa expor todas as faces do atendimento para aproveitar o treinamento sob supervisão e, mais adiante, tornar-se a mais completa referência para quem desejo ser. A responsabilidade contemporânea pela profusão de potenciais benefícios que estabeleceram novos patamares de atenção às necessidades de saúde do paciente trouxe a relevância da segurança, vale dizer, a preocupação com sentidos de danos evidentes e ocultos de uma intervenção. Trata-se do ajuste do primum non nocere dos tempos do niilismo ao princípio da não maleficência do século XX. De fato, uma diretriz clínica com seu olhar voltado para o benefício traz a conotação de heteronomia, mas é o médico por sua plena autonomia  quem se cerca da prudência e se debruça sobre a não maleficência da individualidade do caso.

Se é certo que a medicina baseada em evidências calibra os sentimentos de limites por parte do médico, é também certo que é o vínculo com o paciente- a conexão médico-paciente solidária- que confere a sensação do verdadeiro profissionalismo. É do interior do médico que emana o real significado do princípio fundamental II- O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional do Código de Ética Médica vigente.

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