3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

792- Nostra domus

Não, Nostradamus (1503-1556) apesar da sua capacidade não previu a pandemia de Covid-19. Mas, podemos dizer por uma licença léxica que vivenciamos uma Nostra domus. O nosso domicílio foi revalorizado. O slogan Minha Casa Minha Vida expandiu seu significado. Mais representativo do que home office e que tais.

Em termos de prevenção, percebemos que o bom senso existe porque as recomendações tecnocientíficas são insuficientes na circunstância que vivenciamos. Lavar as mãos, não espirrar ou tossir na cara do outro, ventilar o ambiente não costumam ser prescritos pelo médico até porque não constam de diretrizes clínicas, por exemplo, na área da geriatria que atualmente lidera a preocupação a respeito da gravidade da virose em curso.

A expressão do contágio extrapolou o aspecto biológico, as repercussões  sociais e econômicas são virulentas e a ebulição faz repensar sobre valores individuais e coletivos e refletir sobre o dito por Sun Tzu (544 ac-496 ac) na paz preparar-se para a guerra, na guerra preparar-se para a paz, algo como não há bem que sempre dure ou mal que nunca acabe ou nunca se esqueça que a moeda tem dois lados.

A Bioética da Beira do leito entende que a situação é oportunidade para uma intensificação da reanálise que deve ser frequentemente feita e refeita sobre conceitos e práticas na área das ciências da saúde, utilizando lápis e borracha para os redesenhos. Ensejo para revisão crítica sobre rigidez/flexibilidade, abertura/postura hermética, tolerância/intolerância. Ocasião para sem prejuízo da hierarquia das evidências tecnocientíficas admitir que a vulnerabilidade do ser humano requer amparos além de uma visão cientificista.

Conjuntura que revela o quanto algo tão pequeno que não se vê a olho nu mas com gigantesca visibilidade na repercussão provoca mergulhar no conceito contemporâneo de saúde. Recentemente, o aumento das pessoas com doenças crônicas e maiores complexidades como os idosos motivou uma conceituação da saúde como capacidade de adaptação e autogestão aos desafios de ordem física- proteger-se contra danos-, emocional-  enfrentar situações difíceis e social- cumprir obrigações, portar-se com independência https://academic.oup.com/jmp/article/43/4/402/5050579.

Relacionamos a seguir 10 aspectos de interesse da Bioética alinhados com o que se tem observado desde o início das notícias sobre o novo coronavirus:

  1. Valorização dos profissionais da saúde como agentes morais das ciências da saúde associada à credibilidade que tem sido passada pelas autoridades;
  2. A beira do leito lida frequentemente com contraposições de conduta, opinião, interpretação que exigem a força da competência profissional (conhecimento, habilidade e atitude). Nestes tres meses de domínio do novo coronavirus, ficou clara a pertinência da observação do filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860): Toda verdade passa por três estágios: primeiro é ridicularizada, a seguir sofre violenta oposição e finalmente é aceita como sendo autoevidente;
  3. Observação de frestas em posições rígidas  sobre consulta médica por meio da tecnologia da informação e comunicação em face da inquietude com o presencial;
  4. Dada a urgência urgentíssima, um apoio da comunidade científica guardiã da ética em pesquisa sobre uma flexibilização na aceitação de pesquisa de uma vacina contra o coronavirus com simultaneidade de apreciação sobre eficiência em animais e de segurança em humanos voluntários;
  5. A verificação da vantagem ética da utilização de um mRNA sintético para reproduzir a transmissão do virus para as células e induzir o reconhecimento e anticorpogênese sem utilização de um patógeno atenuado ou uma proteína de superfície;
  6. Repercussão de danos emocionais pelo isolamento, face ao caráter gregário do ser humano, ou seja, uma reversão do alerta que tem sido feito sobre o isolamento emocional representado pelos muitos amigos no facebook e no instagram que significam, na verdade, solidão;
  7. O reforço da visão de beneficência da vacinação, alvo de recentes objeções;
  8. O reconhecimento que qualquer medida na área da saúde tem seus prós e contras, que fronteiras entre prudência e imprudência podem ser obscuras – uma didatização a partir das muitas dúvidas sobre conveniências na mudança de rotinas -, trabalho, escola, lazer;
  9. Pela maior conscientização que todos nós somos pacientes em potencial a qualquer momento, a observação que o direito à autonomia pelo paciente tem suas restrições em situações de emergência- risco iminente de morte evitável;
  10. A imortalidade de a clínica é soberana, um conceito que se enquadra na percepção que só persiste o que muda. A adaptação atual é que havendo o estabelecimento de uma transmissão comunitária a preocupação da prevenção desloca-se para a soberania da manifestação clínica, algo como o tradicional alerta quando a gripe torna-se uma pneumonia.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts