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PUBLICAÇÕES DESDE 2014

619- O técnico e a técnica (Parte 1)

Conexão BLlivroCostumo esboçar um artigo para o blog seguindo Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832): Ideias ousadas são como as peças de xadrez que se movem para a frente; podem ser comidas, mas podem começar um jogo vitorioso.

O interesse pela Bioética é um antídoto em doses generosas para o risco etário da preguiça mental, um espanador de ameaças de poeira nas sinapses e atua na necessidade de chamar a minha própria atenção para as mudanças da medicina que faz conviver muito mais a fazer e mais direito à liberdade individual de consentir ou não. Apresso-me a imaginar um clínico experiente numa crise de narcisismo, este mecanismo de se atribuir importância.

Numa postura tendenciosa e preconceituosa, ele defende sua sobrevivência profissional. De modo veemente, diz a uma fria machine learning atuante num hospital de excelência que ele sempre fez o que ela se propõe a fazer, que é um algoritmo ambulante seguindo escolhas rumo à solução, que aprende com os resultados e mais, que tem número de CRM e portanto está autorizado pela sociedade e desde a formatura segue um juramento que se prolonga na obediência a um código de ética, e, além do mais, não cabe onipotência e onisciência na beira do leito. Ele completa que não precisava todo este pacote legitimador do ser médico, que bastava a sua vontade de estar médico. Pois é, o furtivo burnout pode não deixar este comportamento de auto-inflação tão fantasioso assim.

Concordo com o médico na ideia que trabalha com pensamentos de probabilidades, desenvolve representações de lógica na sustentação de raciocínios clínicos e está em permanente aprendizado chamado de experiência. Em suma, ele é uma máquina  de aprendizado de carne e osso programada pela cultura vigente da medicina e que atua na intersecção entre probabilidade, lógica e aprendizado como a machine learning. Duas inteligências alinhadas com os significados de intelectual. Faíscas são esperadas.

A polêmica não tarda após o desabafo. É preciso reparar qualquer insinuação  que o médico possui a medicina, aclarar que ele faz medicina, produz medicina tendo como alvo o paciente que somos todos nós. Aproxima-se um daqueles anjinhos do imaginário sussurrantes num lado  e adverte ao médico que é restrita a capacidade humana de dominar amplamente as complexidades das infinitas combinações individuais. Imediato, o anjinho par antagônico no outro lado lembra que o exercício da medicina requer sensibilidades humanas, afetos, enfatiza sílaba por sílaba. Não dá mais para segurar a onda de anjinhos. Outro aterriza no lóbulo da orelha do protagonista e afirma que o que interessa ao paciente é o melhor resultado para si, a expectativa que ele de fato valoriza, ao mesmo tempo que o anjinho complementar reverbera no lado oposto que o compromisso do médico é com o método potencialmente útil e eficaz. Um esbaforido anjinho desembarca de uma uber-nuvem e propaga que conclusões de pesquisa sistematizadas são superiores a qualquer coleção de registros assistenciais, para imediatamente, outro anjinho de carona na mesma nuvem expor que cada vez mais os excluídos das pesquisas constituem o mundo real da beira do leito e exemplifica com os idosos e suas manifestações crônicas e flutuantes. Um arcanjo com ar respeitoso exerce sua autoridade e frustra uma fila de pares de anjinhos de manifestarem suas opiniões críticas. O médico retorna para o ambulatório e a machine learning ao seu solilóquio.

É interessante recordar que até há poucas décadas a boa formação do médico significava a incorporação de saberes e habilidades curriculares das ciências da saúde a serem aplicados sob a ética do momento. Com certa diferença cronológica na invenção em mesmo século, o estetoscópio (1816) do francês René-Théophile-Hyacinthe Laennec (1781-1826) e o telefone (1876) do escocês vivendo nos Estados Unidos da América Alexander Graham Bell (1847-1922) agregaram-se com naturalidade à medicina como reforço para a eficiência da relação médico-paciente. Um provocava a aproximação, outro supria o distanciamento, ambos voltados para o acolhimento do paciente. Raios-x, traçados como o eletrocardiograma e o eletroencefalograma, esfigmomanômetro e respiradores associavam-se ao termo aparelho e não a máquina. Um aspecto semântico de influência.

Como num passe de mágica, máquinas tornaram-se corriqueiras na prática médica. Um sentido de competição instalou-se, reforçado do lado da máquina por termos como dispositivos e aplicativos. Preocupações éticas eclodiram, proximidades e distanciamentos tornaram-se alvo da dialética, muitos argumentos esvoaçando, diferente do que aconteceu com o intimista estetoscópio e a telemedicina pioneira do telefone. Combinações de quero, posso e devo eclodiram, a classe médica tentando construir a melhor escolha dentro da premissa que inexiste ética universal ou individual, mas sim a de um conjunto. Entretanto, cerca de 500 mil médicos e dezenas de formadores de opinião constituem uma grandeza insubmissa a consensos. Hipócrates (460ac-370ac) mostrou a sua viva imortalidade…, os aspectos da não maleficência e do sigilo profissional adquiriram elevada consideração no contexto do humano versus maquinaria.

 continua na parte 2

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