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527- Bioética ajuda a “fazer a beira do leito”

O médico contemporâneo precisa se inserir na beira do leito de forma a contrabalançar variadas e inevitáveis tensões. O profissionalismo lhe requisita a reunião da vigorosa experiência no manejo tecnocientífico com a fina sensibilidade para lidar com contingências (o eventual, o imprevisto, o incontrolável).

É sua missão encontrar peculiaridades racionais e emocionais em cada caso para viabilizar equilíbrios entre ciência que sustenta o método diagnóstico, a terapêutica e a prevenção e mente que alimenta dimensões volitivas e impactos de valores.

Assim sendo, fazer a beira do leito é a palavra de ordem do profissionalismo contemporâneo, o que inclui necessariamente a coparticipação do paciente nas decisões.

Por isso, o médico contemporâneo esculpe beira do leito por beira do leito assumindo compromissos com a reestruturação contínua dos conhecimentos em Medicina. Ele renasce a cada novo cenário. Destaca-se pelo empenho por escolhas validadas beneficentes/não maleficentes, subordinado a formalidades de relação com pacientes e colegas reunidas em Código de classe sempre em evolução e, ao mesmo tempo, instigado por exigências utilitaristas de desejos individuais. Em decorrência, movimenta-se energizado pelo muito raciocinar, ponderar, discernir. O jovem que frequenta a beira do leito sob boa supervisão logo percebe que ser médico não admite a figura de boneco de ventríloquo de diretrizes clínicas. A responsabilidade prudente e zelosa é dele, pessoa física com um número de CRM a zelar.

Na incumbência de fazer a beira do leito, as diretrizes clínicas dão um norte, não há como negar a contribuição das mesmas para a excelência da conduta, mas, é a conjugação da experiência pessoal para apreciar circunstâncias presentes ou previsíveis com a susceptibilidade a imprevisibilidades que constrói a recomposição do estar médico para aquele paciente. É reordenamento calidoscópico, que compromissado com deveres com universalidades, exibe ajustes licenciados pelo paciente – consentimento livre e esclarecido-, certas “liberalidades” que não provocam objeção de consciência do médico.

A vivência nos diz que fazer a beira do leito na grande maioria dos casos ocorre uma condução segundo os trilhos convencionados como éticos e legais com mínimas concessões sobre a rigidez tecnocientífica. Vale dizer, numa  sequência plenamente autorizada pelo paciente de conduta recomendável (pelo estado da arte), transformação em conduta aplicável (passagem pelo filtro da segurança biológica individual) e desembocando na conduta consentida (pelo paciente). Mas, há uma minoria que parece preferir uma “anti-Medicina”, a execução de flexibilizações que vão desde o niilismo até “ilusões” sobre ciência, inclusive com incursões na pós-verdade que encobre objetividades com valor prognóstico com crenças e exaltações da emoção de duvidosa efetividade.

A Bioética da Beira do leito compreende a dificuldade do médico quando ocorrem perspectivas de trânsito fora dos trilhos convencionados como éticos e legais, desvios com alegadas justificativas em nome do respeito ao princípio da autonomia.  Assim, a Bioética da Beira do leito contribui para que o médico enxergue de modo mais plural possível fazer a beira do leito, auxiliando a calcular o quantum de “tecnicismo”, “cientificismo” e “humanismo” cada caso requer.

Mais do que a prática de um diagnóstico, de um tratamento ou de uma prevenção, há a vantagem da exata compreensão que ele está ali fazendo a beira do leito como um ser humano instrumentalizado com saberes e habilidades cuidando de outro ser humano necessitado da atenção para o corpo doente e para mente ativada – pode ser o contrário.

Ponto nevrálgico recorrente é a repercussão das eventuais concessões sobre a identidade do médico, o quanto ele pode se sentir – ou arriscar-se a ser visto- infrator da prudência e do zelo.  Ao firmar determinado compromisso fora do comum com o paciente, embora moralmente admissível, ele se vê vulnerável e sujeito a representações éticas e legais. Angustia.

A Bioética da Beira do leito ajuda a estruturar as devidas análises com personalidade e assegurar-se da legitimidade da “esquisitice” como uma consolidação de um copertencimento (médico-paciente) da beira do leito. A razoabilidade de entender fazer a beira do leito como interligado a uma proximidade médico-paciente de respeito interpessoal mútuo e a fronteiras da eticidade e da legalidade.

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