3835

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

329- O estetoscópio da Bioética de todos nós

est
Crédito: http://www.shutterstock.com/pic-87942775/stock-photo-mental-health-and-health-care-with-stethoscope-in-the-form-of-a-human-head-and-brain-on-a-white.html
lae1.jpg
Crédito: http://publicacoes.cardiol.br/caminhos/014/

Há 200 anos, René-Théophile-Hyacinthe Laennec (1781-1826) inventou o estetoscópio e o médico passou a melhor auscultar ruídos formados no interior do corpo humano.

Hoje, outros tipos de murmúrios, atritos e estertores do paciente precisam ser bem ouvidos pelo médico representando palavras da auto-determinação. É contexto em que a quarentona Bioética funciona como um estetoscópio facilitador.

Imagino o médico com um estetoscópio da Bioética pendurado no pescoço de fácil aposição na mente do paciente para auscultar a vulnerabilidade do ser humano “além e diante da técnico-ciência”.

O que médico recém formado vier a assim conhecer lhe soará como um desafio profissional. Ele perceberá realidades não escritas nos livros que ensinam Medicina, mas que é preciso aprender. A difusão desta necessidade para a prática ética contemporânea da Medicina tem sido um trabalho de formiguinha da Bioética.  A dificuldade maior é perfurar notórias impermeabilizações à empatia determinadas pela exaltação com o tecnicismo. 

A classificação da ausculta pelo estetoscópio de Bioética é infinita. Todos os dias haverá um novo som. Uma energia acústica capaz de movimentar algum tipo de confronto com o saber da Medicina. Uma vibração que pode ser suficiente para tirar o médico da zona de conforto, que se é que ela existe- entendo que existe, mas às custas de um grande investimento em sabedoria de vida profissional.

As vacinas do calendário da formação profissional do médico protegem contra próprios micróbios de imprudência e de negligência. A constituição de imunidades a conflitos da beira do leito depende do defrontamento a agentes externos ao médico que habitam a beira do leito, onde sempre haverá mais uma exposição inédita para cada médico atuante.

Por isso, a ideia que a Bioética da Beira do leito deve ser também uma Bioética de todos nós em que o estetoscópio da Bioética é instrumento de valor, qual escoteiro, sempre alerta!

Por certas razões, muitos ruídos da mente do paciente passíveis de gerar conflitos permanecem silenciosos ao exterior. O médico faz o atendimento com correção profissional, o paciente “tem alta” sem nenhuma intercorrência de natureza humana, aparentemente satisfeito com os resultados clínicos e turbilhões de contraposições na mente do paciente permanecem inaudíveis.

A maioria destes ruídos não diz respeito aos temas sintetizados no consentimento em si, ela é de natureza íntima, pessoal, familiar, social, “entendidas como nada a ver com o médico”. Não obstante, uma parte poderia ser objeto da relação médico-paciente. Depende muito de como esta conexão humana é estabelecida pelas partes.

Tradicionalmente, o médico não aprecia envolver-se com o que depreende que não influencia o prognóstico do seu trabalho. Contudo, há turbilhões não percebidos que habitam aquelas terríveis zonas cinzentas fronteiriças, um nem pra cá, nem pra lá que tem a diabólica propensão para transpor os limites inesperadamente, impactar na relação médico-paciente e causar reais conflitos. O então silêncio perde os freios, passa a gritar e a assustar. Fica a sensação tardia que teria sido melhor se o estetoscópio da Bioética tivesse auscultado enquanto “turbilhão silente”.

É um desafio pouco treinado pelo médico. A Bioética da Beira do leito (de todos nós) coloca no cenário a oportunidade para aprender a “auscultar o silêncio”, decodificá-lo em potenciais de matéria prima de conflitos frente a desdobramentos evolutivos e trabalhar prevenções por uma pró-atividade de quebra do silêncio por atenção ao diálogo.

A Bioética da Beira do leito (de todos nós) valoriza a ausculta adulta e realista  dos sons da auto-determinação do paciente por mais silenciosos que se façam. Por isso, a recomendação do uso de estetoscópio da Bioética que amplifica certos pensamentos inibidos e desmistifica que estar calado significa sempre consentimento na relação médico-paciente tão fragmentada da atualidade.                                      

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts