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PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1822 – O imprescindível Botão vermelho da Bioética

 

 

 

 

 

 

O Botão Vermelho da Bioética

Aperte e saia do aperto

Max Grinberg

Núcleo de Bioética do InCor

 

Sou médico assistente recém-contratado em um hospital de ensino. Encontro-me em uma fase de consolidação profissional, marcada por entusiasmo, responsabilidade crescente e pela busca de coerência entre técnica, ética e humanidade no cuidado ao paciente.

Minha formação foi fortemente orientada pela medicina baseada em evidências. Diretrizes clínicas, recomendações estruturadas e avaliação criteriosa de riscos e benefícios compõem meu modo habitual de pensar e agir. Ainda assim, aprendi desde cedo que a prática médica não se resume à aplicação automática de protocolos. A beira do leito exige interpretação, sensibilidade e capacidade de adaptação diante da singularidade de cada paciente.

Foi nesse contexto que vivi uma experiência marcante no quarto 6000.

O paciente, adulto, lúcido e plenamente capaz, apresentava uma condição clínica grave, porém potencialmente reversível mediante intervenção bem estabelecida e recomendada pelas melhores evidências disponíveis. Após cuidadosa explicação diagnóstica, prognóstica e terapêutica, manifestei de forma clara minha recomendação profissional.

A resposta foi direta e respeitosa:

“Não consinto, doutor.”

A recusa foi consciente, reafirmada e compartilhada pelo casal. Não se tratava de incompreensão, negligência informacional ou incapacidade decisória. Tratava-se do exercício explícito da autonomia.

Apesar de conhecer, em teoria, os fundamentos éticos e legais que sustentam o direito à recusa, senti-me profundamente desconcertado. A rejeição à conduta que eu considerava claramente benéfica provocou conflito interno, frustração profissional e sensação de impotência. O planejamento terapêutico, tecnicamente correto, tornara-se inaplicável.

Instalou-se o impasse clássico da clínica contemporânea:
beneficência sustentada pela ciência versus autonomia sustentada pelo direito.

Após tentativas éticas e respeitosas de esclarecimento adicional, a decisão do paciente manteve-se inalterada. Restava-me aceitar o limite da minha atuação. A alta hospitalar, por recusa assistencial, tornou-se opção de conduta  — correta do ponto de vista ético, ainda que dolorosa sob o aspecto emocional.

A angústia persistiu.

Foi nesse cenário que recorri ao Comitê de Bioética do hospital, acionando simbolicamente o chamado “botão vermelho da Bioética” — um recurso institucional criado para apoiar profissionais diante de conflitos morais difíceis.

O diálogo com a Bioética foi decisivo.

Com escuta qualificada e argumentação clara, fui ajudado a reorganizar meu entendimento: respeitar a recusa não configura negligência quando há informação adequada, capacidade decisória preservada e registro transparente. O dever do médico é oferecer o melhor da medicina; a decisão final sobre aceitá-la pertence ao paciente.

Compreendi, então, que não fazer pode ser, em determinadas circunstâncias, a única forma ética de continuar cuidando.

A Bioética não elimina o desconforto, mas o legitima. Não neutraliza a frustração, mas lhe dá sentido. Não resolve todos os dilemas, mas protege o profissional de ultrapassar limites que comprometeriam sua integridade moral.

Saí do encontro mais consciente de que a medicina contemporânea exige do médico não apenas competência técnica, mas também maturidade ética para lidar com a limitação do próprio poder de agir.

Aprendi que a recusa do paciente não é um ataque à medicina, mas uma expressão legítima de valores individuais. Que a autoridade médica não se sustenta na imposição, mas no respeito. E que crescer profissionalmente implica aceitar que nem toda boa decisão clínica pode se transformar em ação prática.

Já sou médico. Ainda estou aprendendo a crescer.

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