É fato necessitado de redizer que o inexperiente tende a se proteger num efeito manada como é dado, por exemplo, pelo uso acrítico de diretrizes clínicas, enquanto que o experiente assim se qualifica com as prateleiras do armazém da memória preenchidas por sucessos e insucessos de variações. O diálogo franco entre mestre e aluno – deveria ser um pleonasmo – é essencial para que não haja perda de oportunidade para esclarecer dúvidas que, se jogadas para debaixo do tapete, geram calombos que causam tropeços futuros.
A aceitação ou rejeição do mais ortodoxo ou mais heterodoxo deve ser resultado de uma estrutura didática onde mestres e discípulos comungam reciprocidades úteis para ambos e nenhuma objeção é uma ofensa. É fundamental que haja disponibilidade de tempo, quantitativo e qualitativo, o mais importante não é a quantidade de minutos mas o que resulta da simbiose eu antigo ensino – você novato aprendo, eu novato necessito – você antigo acolhe.
A Bioética da Beira do leito não cansa de reiterar que pacientes com mesmo diagnóstico não constituem um bloco compacto, eles formam um conjunto de variantes sob mesma classificação nosológica. Por isso, ter supervisão por período apropriado qualifica o recém-formado para lidar com as divergências, representa fermento profissional que faz o interior crescer diante dos casos, para o que der e vier. Como dito por Isaac Newton (1643 – 1727): Se vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes, o valor do avanço já estabelecido – embora possa comprometer a visão abaixo – que se traduz em amadurecimento para tomadas de decisão, fortalecimento do compromisso responsável com paciente/familiar, sistema de saúde e instituição de saúde.
É interessante recordar que grandes médico do passado, ao mesmo tempo em que lançam formidáveis contribuições tecnocientíficas e exercem domínio do humanismo, vivem enormes dificuldades para traduzir excelente teoria em boa prática na beira do leito. Grandes didatas pecam na assistência, o valor de seus conhecimentos fica como que terceirizado para os discípulos. Uma forma de reverter é dispor-se a fazer descolonizações – com a dispensa da rigidez do “não dou para isso” – e recolonizar a competência num modo transdisciplinar pela oxigenação com campos de saber distintos.
Cada situação clínica por mais repetida que possa ser para o médico sempre instiga e determina alguma peculiaridade na maneira de condução que, embora possa seguir um fio condutor, costuma acrescer ajustes de natureza clínica e/ou humana. Há o terrestre e há o transcendente.
Dogmatismo, inalterável, impossível são termos que não devem exercer orientação sobre os processos de tomada de decisão profissional na beira do leito. Cada atendimento é uno, cria espaço para experiência, amadurece pela individualidade, não importa a quantidade dominante de certezas/verdades.
