A Bioética participa de encontros, convocada, orienta inclusões e exclusões de modo a valer a pena atendê-la como guia. Consultores em Bioética não são árbitros impositores, eles promovem análises, aprendem em serviço reconhecer as expansões e as limitações de seu mister por um feedback receptivo, percebem a imperiosidade de serem imparciais, mesmo quando não são neutros em relação ao encaminhamento da questão.
Em outras palavras, consultores em Bioética podem não ser neutros “para dentro de si”, em solilóquios que pendem para um dos ângulos opostos que lhes daria o rumo caso tivessem função executiva. Todavia, não sendo executivos, eles são conscientes que precisam manter a imparcialidade, concentrarem-se e cuidarem para que o máximo de nuances éticas, morais e legais seja pensado e apreciado, holofotes esclarecedores bem direcionados, jamais podem escorregar nem para um coleguismo por si só, nem para um exagero da vulnerabilidade do paciente. Eles sabem que devem ser impermeáveis a endosso acrítico a posicionamentos advindos desde colegas. Atitude crítica deve dominar.
É habitual consultores em Bioética entenderem os dramas de consciência da beira do leito vivenciados pelos médicos motivados por um não consentimento pelo paciente, especialmente quando associado a alto impacto danoso sobre o prognóstico clínico no curto prazo. Ao mesmo tempo, cabe a eles expor-lhes com clareza e autoridade o peso atual “paralisante” do Doutor, não consinto, vinculado ao direito à voz ativa pelo paciente, menos sentimento, mais pensamento para canalizar humanismo para a tecnociência na medida aceita pela contemporaneidade.
É notório que qualquer contraposição no contexto da conexão médico – paciente tem o potencial de gerar tensão entre ser/estar/ficar profissional aplicador de método diagnóstico/terapêutico/preventivo, soberano pelo conhecimento, e o ser/estar/ficar sujeito à normas dominantes, ambos mesma pessoa. Não faltam exemplos de como instituição de saúde e sistema de saúde causam ajustes que por maior boa intenção que seja são fontes de tensão profissional, o que amplia o aspecto conceitual do não consentimento.
Frente à angústia do médico que, após o não consentimento do paciente a sua recomendação beneficente diz “não admito deixar o paciente morrer”, um bálsamo desde a Bioética é acentuar que o não consentimento pelo paciente numa situação de alta gravidade significa na verdade redução da chance de beneficiar o mau prognóstico natural e que a queda deve ser colocada na conta da responsabilidade do paciente pela inobservância de recomendação cientificamente validada. Cada um exerce sua parte, sempre considerando que o que pode vir a ficar de fora, pode incomodar na sequência.
A orientação da Bioética é apoio habitualmente anônimo para o paciente que não deseja se submeter. O entrelaçamento entre as pessoas do médico e do paciente e a medicina sujeita à Bioética requer um exercício de conscientização do que significa liberdade. Liberdade para aplicar beneficência. Liberdade para se recusar a ser submetido.
