A Bioética da Beira do leito entende que não há necessariamente uma carência de confiança do leigo no profissional no não consentimento, ele se revela mais uma manifestação de cunho pessoal sobre a medicina que diz respeito a suas necessidades, e que é distinta da visão do médico.
A Bioética da Beira do leito enfatiza, neste contexto, que o médico não possui a medicina, ela é uma “propriedade” coletiva que o leigo -paciente pode rejeitar após conhecer beneficências e maleficências a ele aplicáveis e que interpreta como um bem ou um mal. Assim como existe a medicina defensiva, pode-se nomear eventual aplicação da medicina indesejada pelo paciente como medicina ofensiva.
A Bioética da Beira do leito reforça que um dos desafios éticos e legais do lidar com não consentimentos momentâneos e antecipados quando a situação clínica pode ser considerada como iminência de morte evitável é a mescla de objetividades e subjetividades na avaliação da iminência, pois ela admite tanto indubitável proximidade – como numa fibrilação ventricular – quanto ameaça – como num infarto do miocárdio então estável.
Eis que a fragmentação de razões para o não consentimento – cada um tem a sua como representado na abertura de Anna Karenina de Lev Tolstoi – ganhou ao longo do século XX a participação de uma organização determinada pela espiritualidade.
Pacientes Testemunha de Jeová não aceitam receber transfusão de sangue por motivo religioso, eles dão foco no par sangue/vida conforme interpretam textos da Bíblia. Conflitos se tornaram comuns no âmbito da conexão médico-paciente Testemunha de Jeová. Um capítulo destacado na Bioética da Beira do leito.
Comumente, médicos “formados para fazer” ficam desconfortáveis quando não podem aplicar beneficência disponível. A ressalva ética da iminência de morte evitável tornou-se um dilema, inclusive, motivo de recusa profissional a assumir responsabilidade pelo caso associado à recusa de transfusão de sangue. Médicos gostam de aprender sobre risco de morte para a evitar, mas não se sentem confortáveis falar sobre o ato da morte que não pode evitar.
