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1780- Autonomia e Heteronomia na gangorra (Parte 6)

Assim sendo, o médico deve desenvolver um grau aceitável de ajuste do “controle interno” sobre o que seria uma verdade absoluta em função do externo, evidentemente sem violentar a consciência. A recomendação ao paciente pode ser uma verdade de beneficência/não maleficência na emissão, mas, não necessariamente, é captada como tal, quer seja por efeitos do medo, de vivências negativas ou de circunstâncias da vida atual do paciente. Cada médico coleciona variedades, bem como falta de tempo para se dedicar mais extensamente a único paciente.   

Assim como médicos se sentem presos aos significados do tradicional Juramento à formatura, mentes dos pacientes revelam alinhadas a produções de memórias e de imaginações com predomínio de um sentido desagradável, assim motivando recusas de primeira ordem. Nem sempre o livre pensar que é direito do paciente se comporta com liberdade pelo próprio cérebro preso ao passado e/ou a projeções de futuro que são utilizadas como referências à manifestação do (não) consentimentos. Algoritmos sofrem!     

Preocupação não infrequente do cotidiano do jovem recém-formado, articulada ao noviciado em conexão com o paciente é o receio de vir a ser processado no CRM por não ter feito o que sabia que teria que fazer segundo as diretrizes clínicas. É inquietude multidimensional que inclui, comumente, o fato de ter sido essencialmente treinado para fazer e não ter tido exercícios sobre não fazer apesar de corretamente indicado.

É a beira do leito assistencial que, como eficiente sala de aula, ensina que, como se diz, não é porque dispõe-se de um martelo que tudo à frente é prego. É fundamental, por exemplo, tomar decisões terapêuticas supondo que incerteza, desconhecido, acaso e inevitável habitam reações biológicas, deixar sempre uma “porta aberta”, confiar para que possa moralmente fazer, mas com pontas de desconfiança para que possa clinicamente melhor acompanhar.  Autonomia e heteronomia de mãos dadas.

É sempre pedagógico quando se pretende analisar hierarquia no tema heteronomia-autonomia recordar o Paradoxo de sorites (monte em grego) formulado por Eubulides, no IV século aC.  De modo simplificado, mil grãos é um monte, um grão não é um monte. Ao transferir  grãos, quando é que o monte deixará de ser um monte e o conjunto que recebeu a transferência passará, então, a ser um monte?  Cada um pode, de modo autonômico, mentalizar um número, o consenso num determinado é praticamente impossível. Qualquer decisão sobre um número a ser utilizado por todos depende de uma manifestação heteronômica com poder – e respeito- para decidir em nome de todos. Eu consideraria 523, você, bioamigo, consente com ele?       

O espectro da negligência que ronda a beira do leito menos segura tem o poder de provocar pelo afã de evitá-la uma queda na imprudência – má escolha, companheira daquela no Art 1 do Código de Ética Médica vigente: É vedado ao médico causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência. Não se trata, entretanto de uma questão “se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”, ambas as opções ruins. É preciso livrar-se de uma hipocondria moral centrada na negligência quando não se faz porque se respeitou o não consentimento do paciente adulto e capaz.

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