Logo a comunidade científica verificou que o antônimo de autonomia é coerção, ou seja, “paternalismo autoritário” é que é o contrário de liberdade de expressão pelo paciente e, não exatamente, a disposição do médico em orientar tecnicamente o comportamento do paciente amigavelmente e sem violência. Resultou que o paternalismo foi subdividido em forte – a ser de fato eliminado – e em brando, estimulável após eventual recusa do paciente. A linguagem é poderosa!
O paternalismo, o brando, incorpora o interesse profissional em conhecer as causas de negativas do paciente – felizmente minoria no cotidiano da beira do leito, mas que incomodam muito -, em produzir reexplicações, encontrar meios moralmente aceitáveis de dar novas oportunidades ao paciente de reconhecer o valor da conduta recomendada, inclusive a disposição para ajustes conciliadores.
Por exemplo, o reconhecimento pelo médico de ter havido um “nocaute emocional” do paciente provocado por uma má notícia, dar um tempo, recomendar uma segunda opinião que será efetuada num timing após certa recuperação do impacto. O provável mesmo teor da recomendação terá o dom de se tornar uma “segunda primeira opinião” com chance de reverter o não consentimento de uma maneira moralmente admissível. Quem pode ir contra este paternalismo que é carregado de sincera atenção às necessidades de saúde do paciente?
Entendo que o paternalismo, o brando, é o oposto ao mito de Procusto aquele que fornecia uma cama para os viajantes numa medida fixa que considerava como a que as pessoas deveriam ter, de modo que esticava as pernas daquele que fosse menor e cortava as pernas do que era maior. Refere-se à intransigência, à imposição de padrão único.
É essencial que o o pano de fundo da aplicação do paternalismo, o brando, seja a mais fiel reprodução do cenário daquele atendimento. É oportuno que não haja distorções sobre os detalhes da manifestação de não consentimento pelo paciente. É cautela que dá legitimidade “leiga” a eventuais novas explicações “técnicas” sobre beneficência e maleficência.
A disposição do médico para se envolver de fato, inclusive para sentir que o Não consinto doutor, não somente costuma ser oposição à medicina e não ao médico, como também que pode ser de caráter provisório, fortalece-se na virtude da tolerância, na ausência de julgamento pessoal, na convicção sobre a ampla variação da condição humana, na ideia de fazer parte da profissionalismo, ter que lidar conforme a situação se apresenta, vale dizer, absoluto respeito por como o paciente se apresenta, apesar da contraposição.
