
A prudência assim exige na contemporaneidade porque há muitas fontes de conflitos rondando a beira do leito e que se materializam, por exemplo, quando o “quero” legítimo do profissional da saúde esbarra na oposição do “não quero” do paciente adulto e capaz. Eu quero, eu posso, que passa pelo pedágio da tecnociência, precisa passar pelo será que devo? do pedágio do humanismo.
Posso afirmar que testemunhei ativamente a transição da estrita obediência do paciente à “ordem médica é para ser cumprida” para “ordem médica pode ser descumprida”. Inclui que o paciente não está obrigado a justificar o Não consinto, doutor. Neste aspecto, recorde-se que o nosso primeiro Código, em 1929, rezava que O enfermo deve implícita obediência às prescrições médicas, não lhe é permitido alterar de maneira alguma. Hoje é peça de museu, motivo de representação contra o médico.
O profissional da saúde não treinado em atitudes inquieta-se quando o paciente manifesta oposições às recomendações. É natural. O que não deve acontecer é gerar estereótipos desrespeitosos, determinar imediatas atitudes de indiferença, considerando o Não como um tudo ou nada, abandonando o paciente, ou seja, impedindo o desenvolvimento do conflito. Muitos dos conflitos entre saúde e doença só se resolvem mediante soluções de conflitos entre médico e paciente. “Desobediências” não presenciais pelo paciente não deixam de ser conflitos, por exemplo, continuar a fumar, manter-se sedentário, não cumprir prescrição medicamentosa. “Obediência” conseguida, prevenções primárias e secundárias de doenças ganham maior chance.
Vale repetir para o bem da Ética: a vivência ensina que conceitos que são em princípio adequados precisam passar pelo filtro da experiência prática, uma redundância desculpável. Há hábitos, há culturas, há influências de momento – até negacionistas – sempre em plantão. Atualmente, a propagação via redes sociais amplia efeitos.
Uma ilustração altamente pedagógica no âmbito da conexão médico-paciente: Teóricos respeitáveis entenderam que o termo paternalismo no sentido de total prevalência da autoridade do médico sobre o paciente deveria ser proscrito da conexão médico-paciente. Paternalismo pelo médico foi considerado termo antônimo de autonomia do paciente, uma atuação autoritária incompatível com direitos da pessoa. Com a atual feminização da medicina, que diga-se de passagem, tem contribuído positivamente para a boa qualidade do exercício profissional – precisaríamos escrever também maternalismo.
Sempre entendi que não existe boa medicina se o médico não se interessar de fato pelo bem-estar do paciente, e, por isso, fiquei com dúvidas sobre o valor de uma visão tão radical. Uma coisa é evitar o cientificismo e o tecnicismo, outra coisa é reduzir drasticamente as oportunidades do leigo inteirar-se da ciência e da técnica por meio dos esclarecimentos sobre beneficência. Acompanhei de perto por meio da Bioética, continuei entendendo que o meu “paternalismo” era um “conselheiro”.
