A responsabilidade acerca de tomadas de decisão foi sempre cravada no médico, mas, atualmente o direito à voz ativa determina também responsabilidade ao paciente. Por exemplo, quando ele não consente com a recomendação do médico que é, então suspensa, não se trata de uma transferência simples de juízo, mas de um entendimento que a vontade do paciente capaz passou a ter predomínio na hierarquia entre heteronomia e autonomia, mesmo em prejuízo da saúde.
Pode-se, inclusive, conjecturar que o Sim doutor, consinto trata-se de uma apropriação da heteronomia do conhecimento especializado pela autonomia da pessoa. A rotina do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido com o intuito de comprovar que o paciente estava ciente – e de acordo – com o risco que acabou se realizando como adversidade/intercorrência evolutivamente é ilustrativo deste apoderamento no processo de tomada de decisão. Em outras palavras, a heteronomia gera a autonomia. Razão para a importância do conteúdo da recomendação, da sua vocalização, da linguagem corporal associada e da disposição para vaivéns em diálogo.
Incorporo a Bioética na equipe valorizando o multiprofissional e o transdisciplinar com disposição para trabalhar pela saúde em meio a doenças em sentido literal e metafórico (instituição e sistema de saúde), entre objetividades e subjetividades, assim indo através e além das disciplinas no fazer alinhado a valores morais. Inclui em alta hierarquia o foco nas Residências nas várias profissões da saúde com enorme demanda de humanismo e alto nível de exigência tecnocientífica. É essencial desenvolver um ambiente ideal para discussões (re)construtivas acerca da Ética. Como se diz, aprende-se por osmose.
Uma força da equipe com “o dedo da Bioética” está no apoio moral a todas as iniciativas que objetivam melhor qualificar a utilidade e a eficácia das ciências da saúde nesta época de aceleradas transformações associadas a perturbadoras interrogações e a bem-vindas exclamações, a rupturas e a renovações há pouco inimaginadas fora de um contexto ficcional. A Bioética proporciona mérito, coragem e crítica, introjetei-a de uma forma indelével, ajuda a me tornar o que sou, sustenta um poder que massageia a autoestima. Recomendo!
Atualmente, cinco gerações convivem no dia-a-dia do ecossistema da beira do leito, a de octogenários, a baby boomers, a X, a Millenium e a Z. Como de hábito, uma geração ensina a seguinte, mas também as mais novas têm sido, ultimamente, fonte de aprendizado para as mais velhas, o lidar eletrônico e formas de equilibrar vida pessoal e profissional ilustram. O par clássico e inovação no arsenal de métodos tem tido transformações rapidamente sequentes, o que exige e sustenta vaivéns pedagógicos intergeracionais, etarismos à parte.
Como coordenador do Núcleo de Bioética, oriento a respeito da qualidade ética/moral das atividades da equipe, quer na docência, quer na pesquisa e quer na assistência. Aperfeiçoar é um lema, ou seja, correr atrás da perfeição que está sempre adiante, num trabalho de Sísifo. Cada atualização de diretriz clínica, por exemplo, traz necessidades de revisão do ideal até então e este processo de aperfeiçoamento por “evidências melhores” obriga a ter sempre aberto um guarda-chuva de composição ética, moral e legal. A Bioética dispõe-se a cumprir este papel essencial no cuidado de um ser humano por outro ser humano.
