Bioamigo, faço parte de uma equipe hospitalar integrada a uma faculdade de medicina de grande tradição. Diariamente participo de decisões e aplicações tecnocientíficas que interessam a pacientes classificados como de alta complexidade. Sujeito-me à Ética entendendo-a como um poder específico que contribui para a excelência, e que precisa ser ativado, pois não atua de modo independente. Por isso, suas interações com o ecossistema da beira do leito necessitam ser cotidianamente vistas, constantemente revistas e mentalmente previstas. Como se diz, Ética não se define, Ética se pratica. Pratico e contribuo para sua prática no ecossistema da beira do leito.
Como faço o que eu gosto, me sinto cumprindo uma missão social com peso atenuado. inclusive, pela fluidez proporcionada pela organização ética e que, evidentemente, não pode deixar de ter laços trabalhistas que, no entanto, não são razão maior na pluralidade irredutível de meus compromissos comigo mesmo. As orientações alinhadas à Ética ajudam a evitar que a carga horária a cumprir seja um fardo.
Pegando carona em René Descartes (1596-1650): Sou ético, logo exito!, embora por vezes caiba Sou ético, logo hesito! Pois a Ética da prudência é essencial no ecossistema da beira do leito, que pode ser apresentada também como ética da responsabilidade que dispõe que devemos responder não somente por nossas intenções ou princípios, mas também pelas consequências de nossos atos, tanto quanto possamos prevê-las. Como se sabe, objetivos beneficentes da prática da medicina convivem com malefícios que suscitam preocupação com previsão e evitação dentro do possível.
As boas intenções da heteronomia médica que visam beneficência para aliviar sofrimento, reverter dor, controlar a história natural da doença podem ser especificadas como indevidas pelo paciente que, então, tem o direito de acionar uma autonomia de recusa. É minoria na realidade do cotidiano da beira do leito, mas não consentimentos têm fortes impactos. Precaução é palavra de ordem na beira do leito, componente indispensável nos processos de tomada de decisão na conexão médico-paciente contemporânea. É imperioso em nome da fidelidade ao futuro, o que em medicina abrange termos como prognóstico, qualidade de vida e sobrevida.
Ética é indispensável. Ética é matéria-prima de um compliance interno que conecta, personaliza, reproduz. Aprendi desde cedo que ser/estar/ficar ético precisa ser pleonasmo para o médico, mas, para isso, precisei entender os meandros da Ética e me dispor a aperfeiçoar com os verdadeiros mestres – colegas, alunos e pacientes. Por outro lado, a Ética provoca dependência, o que determina controle e portanto tem o potencial de oprimir. Por isso, a gangorra da autonomia e da heteronomia em que o médico se vê na beira do leito.
Neste balanço, há o peso das diretrizes clínicas, heteronômicas – registre-se sem dar muita liberdade a contestações -, embora não deva ser consideradas algemas, mas sim bússolas e há o peso da diretriz de vontade do paciente, autonomia – registre-se livre- para dizer Sim doutor, consinto ou Não consinto, doutor.
