Lido com ele há três décadas, acompanhei casos, orientei tese de doutorado, reforcei a inconveniência da emissão de juízo de valor sobre a atitude do paciente, aprendi que paciente Testemunha de Jeová passaria a se ver como um “vivo morto” caso tenha sua vida salva por uma transfusão de sangue. O slogan motivacional sobre doação de sangue não lhe cabe. Nenhuma felicidade pela ajuda eficiente da medicina e da solidariedade. Uma alta hospitalar pós-transfusão de sangue representaria uma baixa vital.
Como então o médico (a) deve se comportar? A Bioética da Beira do leito recomenda evitar ao máximo possível chegar a uma indicação de transfusão de sangue, esforçar-se por recolher e repor o próprio sangue durante o ato cirúrgico (cell saver) e aplicar alguns métodos que aumentam as taxas de componentes sanguíneos são desejáveis e respeitosos. Mas, há situações clínicas em que o médico(a) não poderia prescindir do uso de transfusão de sangue – ou derivado – para que haja chance de sucesso no controle/reversão do grau extremo de anemia/hemorragia.
É essencial que cada médico(a) desenvolva sua atitude perante o dilema Transfundir ou não transfundir, eis a questão, tendo como fios condutores uma meada constituída por respeito à manifestação explicita do paciente capaz de não consentimento, emprego de métodos ditos alternativos quando pertinentes, ditames de sua consciência, compreensão sobre o significado de perjúrio ao Juramento de Hipócrates, entendimento sobre eventual interpretação de negligência quando a não aplicação é motivada pelo não consentimento do paciente, percepção que caso imponha a transfusão enquadraria numa imprudência.
Há sempre a possibilidade de o médico(a) valer-se do princípio fundamental VII do Código de Ética médica vigente: O médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente. Entretanto, o mergulho nas complexas decorrências de um não consentimento pelo paciente – , conceitualmente, independente do que possa se tratar- contribui sobremaneira para a boa qualidade da conexão médico-paciente em geral e da atenção ao sentido social da medicina.
A Bioética é fórum útil para ampla discussão transdisciplinar, multiprofissional nos vários ambientes da medicina, contribuindo, especialmente, para dar bases multidimensionais a escolhas pelo exercício da autonomia entre influências heteronômicas conflitantes.