Cada paciente tem seus modos de reagir à medicina, às orientações do médico(a) que, diga-se de passagem, é um profissional que não possui a medicina, ele aplica uma propriedade coletiva com forte sustentação tecnocientífica. No entorno de conhecimentos e habilidades, coexistem hipocondríacos fãs de fármacos e quem resiste a qualquer medicação, o mesmo é válido para operações, vacinas e mudanças de hábito. Mesma medicina, distintos médicos e pacientes.
Na instigante questão de o ovo ou a galinha, é mais plausível considerar que o paciente nasceu primeiro, o que significa que o médico(a) veio para o assistir. A assistência no Brasil há cerca de 100 anos funcionava segundo: O enfermo deve implícita obediência às prescrições médicas, as quais não lhe é permitido alterar de maneira alguma. Igual regra é aplicada ao regime dietético, ao exercício e quaisquer outras indicações higiênicas que o facultativo creia necessário impor-lhe (Código de moral médica, 1929). Atualmente, implícita obediência e necessário impor foram desconectados do exercício da medicina, o diálogo, a comunicação não violenta, o esclarecimento, a responsabilidade e a liberdade é que se impõem.
A Bioética associa o respeito ao direito do paciente de expor seus desejos, preferências, objetivos e valores sobre suas próprias questões de saúde ao princípio da autonomia, um tema relacionado ao autogoverno, à autodeterminação, ao autoconhecimento, à independência, à reflexão crítica, à responsabilidade consigo. Reforçando o já exposto acima, a beneficência da tecnociência, o potencial de benefício de métodos diagnósticos, terapêuticos e preventivos pode ficar cerceado pelo não consentimento do paciente. Um atrito que compromete a fluidez.
A Bioética valoriza a espiritualidade presente nos pacientes que coopera para dar força, promover resiliência, sustentar a esperança no bom resultado, reconhece como um adjuvante da autonomia em consonância com a beneficência pretendida. Ademais, interessa-se por uma conjuntura de ocorrência de colisão da crença religiosa com um método que a sociedade interpreta, comumente, como um salva-vidas (“Doe sangue regularmente. Você doa, a vida agradece”, “Doar sangue é um ato de solidariedade. Junte-se a esta causa e salve vidas”, 25 de novembro é o Dia Nacional do Doador de Sangue). Obviamente, dispor-se a doar é uma coisa, dispor-se a ser receptor é outra coisa.
O acontecimento refere-se a pessoas adeptas da crença Testemunha de Jeová, fundada por Charles Taze Russell (1852-1916) no século XIX. É comunidade que se recusa a receber transfusão de sangue face a interpretações que fazem da Bíblia. Evidentemente, a Bíblia não menciona explicitamente transfusão de sangue – os bancos de sangue foram criados há cerca de 100 anos -, trata-se de entendimento por analogia a não comerás sangue. É assunto para a Bioética.