3914

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1742- Não consinto, doutor (Parte 1)

Dizem que querer é poder. Diria que não querer faz não poder. Lá única pessoa, aqui duas pessoas. Malabarismos vernáculos à parte, no âmbito da medicina, o paciente não querer se submeter faz o médico(a) não poder aplicar o pretendido. Simples assim. É como nos dias de hoje deve funcionar o respeito à pessoa do paciente pelo médico(a) que o atende honrando a representatividade do número do CRM que a sociedade lhe concedeu.

A medicina brasileira convive com seu nono código de ética médica. O vigente desde 2018 enfatiza que o respeito à pessoa do paciente inclui o uso de todos os meios disponíveis de promoção de saúde e de prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças, cientificamente reconhecidos e a seu alcance, em favor do paciente e, também, o reconhecimento do direito do paciente de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas para si. Responsabilidade e liberdade teóricas nem sempre, contudo, harmonizam-se na prática que envolve um ser humano cuidando de outro ser humano, numa convivência tão específica de caráter/personalidade/temperamento quanto a infinita desigualdade entre impressões digitais e DNAs presente entre os Homo sapiens.

O significado prático na medicina é que qualquer conduta aplicável sob responsabilidade médica necessita imperiosamente do livre consentimento pelo paciente cognitivamente capaz. No semáforo do atendimento, Sim doutor é Siga! Não doutor é Pare!

Idealmente, a medicina recomendada é esclarecida ao paciente quanto a prós e contras e ele, livremente, emite suas considerações favoráveis ou desfavoráveis à aceitação dentro de uma gama de possibilidades de respostas que vão do extremo de o que o senhor fizer está bem feito ao extremo de não consinto, doutor.

Na maioria das vezes nos processos de tomadas de decisão ajustam-se  situações contrapostas, mas não faltam momentos de recusa pelo paciente. O médico(a) atencioso procura entender razões da negativa, reexplica, dá um tempo, sugere uma segunda opinião e, uma vez passado o nocaute emocional da considerada má notícia, assim dá chance de autêntica reversão para o consentimento. Entretanto, o não consinto doutor pode vir a se tornar definitivo. Neste contexto, por exemplo, não é incomum o paciente ler sobre possibilidades de adversidades do medicamento na bula e desistir do potencial de benefício devido ao potencial de malefício que lhe fala mais alto. Nada contra o médico(a), mas contra a medicina, uma distinção necessária haja vista como objeções do paciente podem repercutir sobre o ego profissional.

O não consinto, doutor instala desafios na conexão médico-paciente-medicina. O médico sabe fazer, discorda de não fazer o que é para fazer, conhece as consequências negativas para o prognóstico a curto, médio e longo prazos, para a qualidade de vida imediata ou remota do paciente, incomoda-se, mas ao mesmo tempo, a sucessão de casos fortalece a consciência do dever cumprido da orientação e, que, por isso, deve entender que não ter podido fazer em função do não consentimento pelo paciente isenta-o de uma interpretação de profissional negligente e que, por sua vez, caso venha a desrespeitar a vontade do paciente estará cometendo a infração ética da imprudência. Mas, há sempre a possibilidade da acusação, fonte de estresse profissional e burnout. Por outro lado, o paciente espera que o médico(a) acate sua voz ativa e possa construir alternativas úteis e eficazes ao seu gosto. Quanto à medicina, o progresso ao mesmo tempo que eleva a utilidade e eficácia (beneficência) não pode deixar de se acompanhar de certezas e incertezas de danos que impactam no consentimento pelo paciente.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts