Vale relembrar a história da medicina. No livro O Olho Clínico (1936) o autor da Escola de Viena iniciada pelo epônimo Franz Chvostek (1835-1884) exalta as vantagens do médico ser um visitante: familiar na porta significa situação preocupante, entrar no quarto do acamado – dedica cinco páginas sob o título O quarto do doente – permite o diagnóstico diferencial pelas exalações acumuladas entre coma diabético, coma urêmico e coma hepático, possibilita perceber urinol cheio e a constatação de umidade como predisposição à tuberculose ou a visão de nariz em sela do pai indica a hipótese de sífilis no filho. A transferência do atendimento para os hospitais anulou o valor desta modalidade de olhar de relance.
A Bioética da Beira do leito enfatiza que o médico não possui a medicina, ele aplica medicina na conexão médico⇔paciente e tanto faz se ele pode ser cogitado como proprietário ou visitante do local em questão. Na verdade, os locais são domicílios e estabelecimentos de ambos médico(a) e paciente – o SUS traz este recado. E porque o médico, por sua formação, tende a entender que o local de trabalho é seu domicílio ou estabelecimento e o paciente é o visitante, hipertrofia-se o conceito de beneficência que o médico possui pelos seus conhecimentos e habilidades e apequena-se o respeito à voz ativa do paciente, entendida a de um leigo que procurou ajuda no saber profissional e exigente de uma submissão acrítica. Aliás, foi o clássico até há algumas décadas. Ao variar o lado de quem solicita “dá licença para entrar”, varia também a hierarquia entre beneficência pelo médico e autonomia desde o paciente.
Assim, a educação médica atual deve enfatizar – e a Bioética é mediador pedagógico útil – que o médico(a) deve se enxergar ao mesmo tempo proprietário do local mas não do conhecimento e visitante do local onde se encontra um paciente com o qual se conectará aplicando princípios e virtudes em nome do respeito e da dignidade. Evita-se um percentual de imprudência e negligência relacionadas a momentos clínicos, especialmente se mais complexos, e que representam mau uso da medicina, muitas vezes interpretáveis como contraposições entre a natureza tecnocientífica e a natureza social da medicina, entre o coletivo e o individual.
Afinal, a linguagem médico⇔paciente habitual já dá pistas neste sentido. Vou passar visita no meu paciente! Levarei meu conhecimento, espero que goste, que seja útil. Beneficência e autonomia instadas a se acertarem no entorno de interações entre pensamentos sobre indicação de beneficência (uma potencialidade) e de recepção como benefício (efetivo reconhecimento).
No Brasil, a população Testemunha de Jeová é estimada em cerca de 800 mil e quando na situação de paciente surge a possibilidade de divergências entre dois livros fundamentais: a Bíblia e o Livro de medicina. A interpretação da Bíblia articula-se na beira do leito ao Art. 31 do Código de Ética médica vigente: É vedado ao médico desrespeitar o direito do paciente ou de seu representante legal de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte. A recomendação do Livro de medicina articula-se ao Art. 32: É vedado ao médico deixar de usar todos os meios disponíveis de promoção de saúde e de prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças, cientificamente reconhecidos e a seu alcance, em favor do paciente. Qualquer exercício de aplicação “ao pé da letra” dos dois artigos de modo combinado num determinado caso envolvendo paciente Testemunha de Jeová perante o não consentimento do paciente traz, invariavelmente, os significados das expressões da sabedoria popular: “sinuca de bico” e beco sem saída”. Razão para Alô Bioética!
A desconexão médico⇔paciente que acontece em atendimentos a pacientes Testemunha de Jeová em situações de anemia com indicação de transfusão de sangue em prol de um melhor prognóstico clínico ilustra a imperiosidade do desenvolvimento “lápis e borracha” de uma identidade profissional desde o recém-formado com ajustes orientados pelas efetivas conexões médico-paciente na eterna sala de aula chamada beira do leito e que sustente tomadas de decisão em que não cabem etiquetas de certo e de errado.
A assunção deve ser a de um agente da medicina sensível ao fato que se trata de um ser humano cuidando de outro ser humano, ambos com suas idiossincrasias, e mais, ambos dispostos a compartilhar pensamentos que deem manutenção à conexão. Lembrando Aristóteles (384 aC-322 aC) no atacado: “É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer”, “A busca da excelência não deve ser um objetivo, e sim um hábito”, “O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra” e “Só fazemos melhor aquilo que repetidamente insistimos em melhorar”.
Como se diz, a experiência é um excelente professor, cobra caro, mas explica bem.