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PUBLICAÇÕES DESDE 2014

174- Segurança é prioridade multiprofissional e interdisciplinar

Pesquisa acadêmica realizada com jornalistas especializados em Saúde indicou que a existência de médicos virtuosos e capazes de proporcionar bem-estar e colocar os interesses do paciente acima dos seus próprios é o principal fator de humanização nos cuidados com a saúde   http://www.scielo.cl/pdf/abioeth/v21n1/art14.pdf.  Grande verdade, pois é acima de tudo promoção de segurança para o paciente. Extensível a todos os profissionais da Saúde.

Observemos 3 cenários recentes:

Cenário 1- É possível nascer sem a participação de um médico. Sempre foi. Sempre será. Há a via da Natureza. A civilização produziu o acesso direto ao útero -cesariana (cortar)- que a História da Antiguidade registra que “nasceu” para salvar o feto logo após a morte da mãe. Nas últimas décadas, o parto concentrou-se nos hospitais, nas chamadas Maternidades. O acompanhamento pré-natal estruturado representou um ganho social.  O binômio gestante-feto beneficiou-se do melhor entendimento e da mais qualificada terapêutica e prevenção sobre doenças da gestação como pré-eclampsia e eclampsia e sobre enfermidades da mãe que se agravam pela sobrecarga determinada pelo concepto. Uma Medicina fetal proporcionou diagnósticos antecipados, prevenções e correções de afecções congênitas.  Concomitantemente, a Neonatologia  cresceu  e  modificou o prognóstico da prematuridade, entre outros benefícios ao recém-nato. Valorizou-se, assim, a integração do médico no chamado ciclo gravídico-puerperal e suas inter-relações com a interdisciplinaridade da Medicina, com as instituições de Saúde e com o Sistema de Saúde. Continua a haver nascimentos sem nenhuma dificuldade e com exigência da expertise de uma equipe interdisciplinar. Neste contexto, verifica-se atualmente um cenário de indagações nos meios médicos e na sociedade de modo geral: Número exagerado de partos cesáreos? Dia marcado ou desfecho pela Natureza? Violência obstétrica? Insegurança na realização do parto domiciliar? Anestesia? Sequelas  do parto evitáveis no recém-nato? Obstetra que conduziu o pré-natal ou de plantão no hospital?

Cenário 2- Na cidade de São Paulo, no início do mês de outubro de 2015, um recém-nascido de 24 horas foi abandonado na rua. Imediatamente recolhido, a avaliação clínica atestou normalidade. A mãe quando encontrada relatou que fez o parto dentro de um banheiro e que cuidou sozinha do cordão umbilical, da placenta e da criança.

Cenário 3- Notícia na mídia em 7 de outubro de 2015  http://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2015/10/07/interna_nacional,695598/apos-morte-hospital-cria-acao-contra-erro-medico.shtml. O Hospital Israelita Albert Einstein criou um Programa de Segurança do Paciente motivado por um óbito que está sendo apurado quanto à  possibilidade da ocorrência de erro profissional. Inclusive, ele recebeu o nome do paciente em questão. Um estímulo à atuação profissional com empatia, comunicação e atitude, segundo palavras do diretor-superintendente.

Os 3 cenários compartilham a concepção da Segurança nos cuidados com as necessidades da saúde. Um tema-destaque da Bioética da beira do leito e que tem sido abordado de modo recorrente no blog bioamigo. A noção que circunstâncias de visível Insegurança que têm happy ends como a do cenário 2 não criam descontrações e que circunstâncias de vigorosa Segurança com unhappy ends mobilizam iniciativas de revisões.

A Bioética da beira do leito entende que qualquer apreciação neste campo não pode ignorar os conceitos de cultura da Segurança e de clima de Segurança. Eles interligam-se ao Princípio da Não maleficência, segundo o qual danos precisam ser evitados por uma conscientização que distingue o que é possível  evitar por meio da Prudência e do Zelo, dois pilares da Ética Médica.

Assim, é essencial apreciar a relação entre eticidade da conduta médica e involuntariedade de dano ao paciente. Acasos e fatalidades são termos que devem ser afastados de qualquer raciocínio sobre evitação de danos.

O fato entendido como dano teria ocorrido se a alegada causa determinante não tivesse sido praticada? É questão fundamental na relação causa e efeito. Contudo, na beira do leito, este conceito torna-se mais complexo, pois a maioria das causas determinantes de danos reconhecidos não poderia deixar de ser praticada por respeito à Prudência e ao Zelo para  a circunstância clínica, uma responsabilidade profissional aliada da solidariedade, embora sabendo-se que os benefícios pretendidos e  tornados viáveis por boas práticas carregam potencial de adversidades. E quando uma delas se materializa, a relação risco-benefício pode ter sido bem avaliada, verbalizada ao paciente e consentida.

Desta forma, a simples contraposição que se não tivesse feito daquela maneira poderia ter evitado o evento adverso não cabe na beira do leito. Evidentemente, desde que tenha sido levado em conta a prática validada de uma cultura de segurança. É saber multíplice pelas heterogeneidades de recursos humanos e materiais.

Não cabe ambiguidades na Segurança. Lavar as mãos deve ser uma realização com água e sabão de antissepsia. Lavar as mãos não deve ser expressão de indiferença com evitação de danos.

Ponto positivo do Programa de Segurança do Paciente acima referido é avivar um clima de segurança e assim oxigenar a cultura de segurança, aguçando percepções e interesses. O chamamento a um Sempre Alerta acompanhando as providências pré-determinadas. Bom clima de segurança significa olhar corretivo e inovador que persegue aperfeiçoamentos indispensáveis numa cultura de segurança.

Detectar, corrigir, aprender com eles e dispor-se a criatividades e inovações é fundamental em considerações sobre danos. A cultura de segurança representa retrabalho constante, boa parte dele direcionado para evitação de repetições de danos. Uma palavra sobre alergia, uma contagem de gases e compressas utilizadas no campo operatório, um controle de esterilização de material, um protocolo anti-queda, uma mudança na identificação de ampolas de injetáveis, unem-se à capacitação para a observação acurada de eventos evolutivos no intuito de prevenir e de circunscrever danos.

Nem sempre é fácil sustentar o padrão de eficiência em meio a uma intercorrência grave ou associado a deficiências de recursos humanos e materiais, apesar de acreditações. O trabalho em equipe traz o risco de entendimentos profissionais distintos sobre a classificação como erro, falhas de equipamentos são sempre possibilidades e a influência de uma curva de aprendizado de recém-agregado não pode ser desprezada. A complexidade crescente dos atos médicos e as dificuldades de especificar danos com antecedência em cada tomada de decisão e aplicação exigem clima de segurança com radar a 360 graus e cultura de segurança em constante lapidação.

Presentation1
http://resource.owen.vanderbilt.edu/facultyadmin/data/research/2267full.pdf

Direcionar a atenção, organizar os métodos e tornar alta prioridade é o primeiro grande passo, o que é denominado de Habilitação à cultura de segurança (Quadro). Na sequência, faz necessário mergulhar no operacional com boa coordenação, destacar ameaças manifestas e latentes nos ambientes e ajustar os recursos para as neutralizar, o que é denominado de Prática da cultura de segurança. Habilitação e Prática produzem resultados. Insatisfações com o planejado determinam um feedback para reordenação tanto no âmbito das premissas da Habilitação quanto no âmbito da concretização da Prática, o desenvolvimento de linhas inteligentes de aprendizado, a determinação de incorporar novos meios recém-disponibilizados, o que é denominado de Aprimoramento http://resource.owen.vanderbilt.edu/facultyadmin/data/research/2267full.pdf

A Bioética da beira do leito valoriza a alta qualidade do clima e da cultura de segurança. Ela, inclusive, prefere pensar o Princípio da Não maleficência como Segurança, pois é impossível considerar como  zero o risco de dano para qualquer ato médico beneficente.

Herrar é umano. Evitar o dano é humano.

  

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