O século XX testemunhou a expansão dos hospitais como lugar primordial da prática da medicina e ciências da saúde em geral. Ambientes hospitalares são ecossistemas formados por complexas alianças de recursos bióticos e abióticos alinhadas com diversificadas expectativas humanas sobre preservação da saúde e reversão/controle da doença. No Brasil, a história dos hospitais inicia-se no século XVI com a instalação da Santa Casa de Misericórdia em algumas cidades.
Infinitas atividades hospitalares são articuladas com várias representações concretas e abstratas. Elas provocam inúmeros tipos de transferências e efeitos, com destaque para a forte sustentação pelo uso da linguagem, imprescindível fio condutor dos movimentos. Exemplo contemporâneo é o passo a passo de comunicação crítica nomeada como literatura científica que faz com que conclusões de superioridade de novidades em pesquisas clínicas venham a se corporificar em beneficentes prescrições assistenciais.
Escrever, ler, interpretar, falar, ouvir, ouvir-se falar, ouvir-se ouvir são manejos da linguagem que trazem racionalidades e emoções à atmosfera do ecossistema da beira do leito e determinam que cada atuação hospitalar tenha sua unidade relativa no ar. O leigo paciente capta sentidos da linguagem do profissional, este daquele, decisões se formam da conexão profissional – leigo em meio a ditos e não ditos demandando uma atualizadíssima linguagem de consentimento humano, resultados previstos e imprevistos acontecem, suas descrições provocam interpretações variadas no entorno do sucesso e do insucesso que se fazem e se refazem. Cada etapa acompanha-se da manifestação de afetos.
Pacientes desenvolvem histórias técnicas e afetivas alinhadas a diagnósticos e suas decorrências pois eles requerem novos posicionamentos como submissões à medicina que é aplicada por médico (a) de acordo com cânones que sustentam propostos e dispostos e que têm como pano de fundo a hipocrática lição que bens incertos são matérias-primas para males certos.
Medos e culpas podem ocorrer no médico(a), tanto, inicialmente pela responsabilidade com o proposto – ou não proposto -, quanto, posteriormente, por efeitos indesejados do disposto – ou carência do não disposto. Aspecto relevante do exercício da medicina contemporânea é a acelerada atualização dos métodos que exige um nível de concentração de atenção que estimula o aprofundamento em temas restritos em detrimento da abrangência. Médicos(as) tendem, então, a selecionar a melhor parte deles e tornam-se conscientes das limitações até mesmo dentro da especialidade, chamamentos à crítica da própria competência que são fontes de medos e culpas.
Acertos pró-saúde são objetivos naturais de deveres no ambiente hospitalar, erros profissionais desafiam o infalível dos desejos, confrontos multidimensionais mostram-se inevitáveis, diálogos elucidativos resultam imperiosos, satisfações e insatisfações se sucedem. Silêncio hospital, a placa pode caber do lado de fora, dentro, silêncio afetivo jamais.