Há um verdadeiro bem para os médicos(as) na aquisição do conhecimento tecnocientífico devido ao manejo da beneficência – um domínio sobre o potencial de fazer o bem – e deve haver, também, um verdadeiro bem, na mesma proporção, na sua aplicação no paciente, razão maior do usufruto. O humanismo como fio condutor que desaconselha o cientificismo e o tecnicismo e equilibra a redução da escassez com satisfação dos desejos sobre a atenção à saúde. A ideia que médicos(as) não possuem a medicina, eles aplicam medicina.
O exercício profissional ensina que a complexidade acentua-se com o alargamento da abrangência e a extensão da profundidade decorrentes do progresso tecnocientífico e, por isso, em nome da ética e da moral, fica estimulada no profissionalismo a busca constante de controles de incertezas, em função do paradoxo dos alcances de certezas desdobrarem-se em novas incertezas que reforçam o valor da gestão ética na beira do leito.
É possível atingir a certeza no diagnóstico – diagnóstico de certeza – em que novas imagens penetrantes reproduzem velhas dissecções anatômicas. Mas é impossível afirmar certeza de resultados na terapêutica e na prevenção, aproxima-se pelo uso de estatísticas, método válido no geral mas que não é afirmativo para individualizações.
Num Brasil continental, quantas recomendações médicas ao leigo são efetuadas numa unidade de tempo? O número é altíssimo, as circunstâncias fortemente diversificadas, os resultados mais ou menos previstos e pretendidos. Idealmente, elas têm por base um conhecimento tecnocientífico que precisa ser informado pelo médico(a) ao paciente com clareza – percebido pelo espírito atento – bem como captado pelo paciente de uma forma distinta por um encadeamento descritivo – considerado necessário. Hesitações na aceitação pelo paciente são comuns e requerem do médico(a) não somente a boa medicina mas também uma cultura expandida que alimente a eficiência na comunicação técnica e compassiva (não violenta).
Médicos(as) selecionam o acervo da medicina para as individualidades de cada paciente, que, então, é um caso, aliás, cada vez mais, especialmente pela maior presença de idosos com diversas comorbidades, os médicos(as) se defrontam é com acasos da beira do leito, junções que não cabem em único capítulo de livro, em única diretriz clínica, em única disciplina, assim potencializando o valor da equipe profissional. Razão revigorante para o rigor com formação, informação, reforma, transformação e com contraposição à deformação do contexto da medicina, tendo em mente que o continuum do exercício profissional é um trabalho de Sísifo, sequentes chegadas ao topo – sucesso de um caso – e novas rolagens da “pedra” para baixo como novo caso, o desafio que dá sentido ao cotidiano.
Nos processos de tomada de decisão na área da saúde, há o polo coletivo de conduta fornecida pela medicina – conduta recomendável (universal) -, há o polo de ajustes individuais – conduta aplicável (àquele paciente) -, há o polo de conformidade à conduta aplicável – conduta consentida pelo paciente – e há o polo de desconformidade da conduta aplicável – conduta rejeitada pelo paciente.