Há uma gama de fatores influentes no consentimento ou não do paciente ao médico/medicina. A aplicação do conceito do economista George Loewenstein (nascido em 1955) denominado de Hot cold-empathy gap é também útil no processo de obtenção do consentimento do paciente para o médico. Certos sintomas subsidiam estados de espírito de curto prazo e em consequência maneiras distintas de buscar/aceitar anti-sintomas da medicina.
Na situação “quente” pacientes tendem a buscarem e aceitarem, por vezes, a superestimar, enquanto que na situação “fria” tendem a afastarem-se e, por vezes, subestimar. Os afetos predominantes do momento clínico fazem com que pacientes comportem-se como pessoas diferentes, ora insistentes, ora desistentes de se utilizar da medicina.
Neste contexto, os médicos precisam estar razoavelmente “frios” (estado mental racional e lógico), mas numa calibragem que permita empatia, ou seja, permaneça capaz de compreender variadas perspectivas e atitudes dos pacientes em estado “quente” por fortes emoções articuladas à doença. O médico declara um mau prognóstico ao paciente numa maneira profissional racional e lógica – portanto razoavelmente fria, direta, numa postura de dever de veracidade, sustentação de condutas pretendendo reversão ou até mesmo evitação de obstinação terapêutica, enquanto que o paciente na situação emocional “quente” pela má notícia pode vivenciar os cinco estágios da perspectiva de perda, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
Médicos devem atuar visando ao melhor interesse da saúde do paciente. O Juramento de Hipócrates e o Código de Ética Médica indicam valores e determinativos, mas nada é superior à própria consciência para os juízos ético e moral no decorrer dos atendimentos. Em outras palavras, atitudes devem estar de acordo com a consciência e com obediência à autoridade, numa imagem da fita de Moebius.
O cotidiano do médico, como o de qualquer profissional, está, no entanto, sujeito a tentações classificáveis como conflitos de interesses e que atentam para estimular o médico a dar preferência a um comportamento vantajoso para si, mas, que, por sua vez, é prejudicial para o paciente, vale dizer, a confiança do paciente na eticidade do médico traída.
A Bioética da Beira do leito faz uma analogia do conflito de interesses com a ilha das atraentes e fatais sereias mencionada na Odisseia de Homero (928 aC-898 aC). Passagem obrigatória em seu retorno ao reino de Ítaca, Ulisses preveniu-se do perigo mortal e ouviu os cantos sedutores amarrado ao mastro do navio. Diante da ilha, sob o inevitável efeito dos cantos, Ulisses implorou aos marinheiros que o soltassem, mas eles estavam surdos pela providencial colocação de cera de abelha em seus ouvidos e, assim, as amarras são mantidas e a influência da ilha ultrapassada com Ulisses a salvo. A beira do leito tem várias versões das sereias, razão para que o médico ético mantenha-se amarrado a sua consciência profissional e resista ao ab-surdo de eventuais tentações, impondo limites a si mesmo, desenvolvendo o autoconhecimento.
