3871

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1702- Bioética e valor da cultura geral (Parte 10)

Há uma gama de fatores influentes no consentimento ou não do paciente ao médico/medicina. A aplicação do conceito do economista George Loewenstein (nascido em 1955) denominado de Hot cold-empathy gap é também útil no processo de obtenção do consentimento do paciente para o médico. Certos sintomas subsidiam estados de espírito de curto prazo e em consequência maneiras distintas de buscar/aceitar anti-sintomas da medicina.
Na situação “quente” pacientes tendem a buscarem e aceitarem, por vezes, a superestimar, enquanto que na situação “fria” tendem a afastarem-se e, por vezes, subestimar. Os afetos predominantes do momento clínico fazem com que pacientes comportem-se como pessoas diferentes, ora insistentes, ora desistentes de se utilizar da medicina.
Neste contexto, os médicos precisam estar razoavelmente “frios” (estado mental racional e lógico), mas numa calibragem que permita empatia, ou seja, permaneça capaz de compreender variadas perspectivas e atitudes dos pacientes em estado “quente” por fortes emoções articuladas à doença. O médico declara um mau prognóstico ao paciente numa maneira profissional racional e lógica  – portanto razoavelmente fria, direta, numa postura de dever de veracidade, sustentação de condutas pretendendo reversão ou até mesmo evitação de obstinação terapêutica, enquanto que o paciente na situação emocional “quente” pela má notícia pode vivenciar os cinco estágios da perspectiva de perda, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
Médicos devem atuar visando ao melhor interesse da saúde do paciente. O Juramento de Hipócrates e o Código de Ética Médica indicam valores e determinativos, mas nada é superior à própria consciência para os juízos ético e moral no decorrer dos atendimentos. Em outras palavras, atitudes devem estar de acordo com a consciência e com obediência à autoridade, numa imagem da fita de Moebius.
O cotidiano do médico, como o de qualquer profissional, está, no entanto, sujeito a tentações classificáveis como conflitos de interesses e que atentam para estimular o médico a dar preferência a um comportamento vantajoso para si, mas, que, por sua vez,  é prejudicial para o paciente, vale dizer, a confiança do paciente na eticidade do médico traída.
A Bioética da Beira do leito faz uma analogia do conflito de interesses com a ilha das atraentes e fatais sereias mencionada na Odisseia de Homero (928 aC-898 aC). Passagem obrigatória em seu retorno ao reino de Ítaca, Ulisses preveniu-se do perigo mortal e ouviu os cantos sedutores amarrado ao mastro do navio. Diante da ilha, sob o inevitável efeito dos cantos, Ulisses implorou aos marinheiros que o soltassem, mas eles estavam surdos pela providencial colocação de cera de abelha em seus ouvidos e, assim, as amarras são mantidas e a influência da ilha ultrapassada com Ulisses a salvo. A beira do leito tem várias versões das sereias, razão para que o médico ético mantenha-se amarrado a sua consciência profissional e resista ao ab-surdo de eventuais tentações, impondo limites a si mesmo, desenvolvendo o autoconhecimento.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts