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1698- Bioética e valor da cultura geral (Parte 6)

Na mitologia grega, Procusto era um bandoleiro que possuía uma imensa cama que entendia ser o padrão ideal e oferecia aos viajantes e ajustava os corpos ao tamanho da mesma. As pessoas maiores do que a cama tinham os pés cortados e as menores o corpo esticado. para a “medida exata”. A aplicação para a beira do leito é o alerta sobre as inconveniências da imposição pelo médico de aplicação de método ao paciente de modo intolerante com a opinião/decisão do paciente, vale dizer, a atitude antiética de obrigar o paciente a se adaptar às próprias vontades do médico-  frente a um não consentimento. Acresce um detalhe mitológico, Procusto escondia uma segunda cama de tamanho diferente da primeira, e, portanto, ninguém iria se adaptar às medidas impostas, o que traz a conotação antiética da hierarquização do conflito de interesses.

Eubulides de Mileto no século IV aC formulou o paradoxo de sorites (montes em grego). Se 1000 grãos é um monte e 1 grão não é um monte, a fronteira entre monte e não monte deve ser de quantos grãos? O paradoxo está em que menos 1 grão – dentre os mil – não invalidaria a concepção de monte, mas mais 1 grão – a mesma grandeza- acrescido ao total de um grão não permite  a denominação. No mesmo sentido, quantos fios de cabelo alguém deve perder, ou ganhar, para se tornar ou deixar de ser considerado careca?

A Bioética de Beira do leito entende que o paradoxo de sorites aplica-se cotidianamente na beira do leito trazendo a necessidade de heteronímias com justificativas pragmáticas que não são isentas de vagueza, indefinição e incerteza. Os exemplos do monte e do número de fios de cabelo  podem ser substituídos de algumas formas.

Há bases científicas para definir limites de normalidade universais em testes sanguíneos e em exames de imagem.  Suponhamos, bioamigo, uma faixa ideal de 15 a 40 unidades. A partir de 15 em direção a  40 e vice-versa, uma unidade não representa anormalidade, todavia, aquém de 15 ou além 40, uma unidade suscita insuficiências ou excessos, hipóteses diagnósticas e condutas para controle.

Ademais, um resultado tal como 14 ou 41 poderia ser interpretado de modo variável, como um efeito laboratorial, como “ainda” em limites inferiores ou superiores da normalidade, ou como isento de valor clínico, suscitando, pois, interpretações vagas, enviesadas até, e impedindo que o médico assegure certeza de normalidade ante um paciente com olhar matemático para os números e sem entender porque então há valores de referência, referência sobre o quê exatamente? Linguística, eufemismo e lógica costuma duela na beira do leito.

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