A Bioética da Beira do leito propõe-se a preencher o papel de catalizador de compreensões e de desbravamentos por soluções na conexão médico-paciente. A missão exige excursões de garimpagem, explorar preciosidades num trânsito livre, sem fronteiras entre compartimentos de saberes da cultura geral, em prol da solidez na competência. A prática na beira do leito da conexão médico-paciente é altamente dependente das teorias, contudo, nem sempre as práticas podem ficar a elas confinadas, ou seja, teorias não podem evitar que coisas aconteçam.
Tornou-se imperioso nos desenvolvimentos dos processos de tomada de decisão sobre conduta na beira do leito o respeito ao direito do paciente manifestar voz ativa respaldado pelo princípio da autonomia. A conduta recomendável/aplicável precisa tornar-se conduta consentida. Neste contexto, a conexão médico-paciente na beira do leito reproduz o início de Anna Karenina de Leon Tolstoi (1828-1910): Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz sua maneira como Todas tomadas de decisão harmônicas entre médico e paciente se parecem umas com as outras, cada situação de divergência sobre tomada de decisão entre médico e paciente é complexa a sua maneira.
A beira do leito convive com indicação de método (presença de justificativa tecnocientífica para utilidade e eficácia ), não indicação (ausência de justificativa tecnocientífica para utilidade e eficácia), contraindicação (uma indicação que colide com objeções biológicas do paciente) e indicação rejeitada (indicação clinicamente justificada, mas não consentida pelo paciente). Ademais, pode haver no decorrer da evolução clínica uma faixa de tempo onde convivem ainda não indicação e já indicação sem fronteira sólida, em que fica difícil firmar já indicação como precipitada e ainda não indicação como perda de oportunidade em prol de melhor prognóstico.
A indefinição admite uma adaptação do conceito de paradoxo de escolha de Barry Schwartz (nascido em 1946), numa forma em que a infinidade de opções restringe-se a haver duas escolhas, ambas justificáveis. A dualidade do já e do não ainda comunga não somente com dificuldade de escolha pelo leigo com direito à voz ativa no processo de tomada de decisão, como também, com perspectivas de travamento decisório/excesso de dúvidas pelo paciente leigo (causa de inconsistências na preferência, na visão de utilidade), arrependimento e insatisfação em função de eventuais evoluções desfavoráveis.
Cada médico vivencia diversos acontecimentos imprevisíveis que carecem de encaixes teóricos afirmativos, e, de vez em quando, o paciente reage à recomendação do médico com Não consinto, doutor, o que traz uma fissura narcísica ao médico/medicina, em analogia ao que Sigmund Freud (1856-1939) mencionou em relação à inferioridade do consciente em relação ao pré-consciente e inconsciente, bem como quanto ao heliocentrismo – que eliminou o geocentrismo – e ao darwinismo – ser humano como espécie com evolução homóloga aos dos animais em geral. Neste contexto, o médico precisa se lembrar que já foi um leigo pré-universitário e lhe cabia, tal como o paciente leigo de que cuida, a parábola dos cegos perante um elefante, em que cada um toca e sente uma parte do animal, assim tendo uma percepção limitada e ignorando as dos demais também verdadeiras.