VI
A beira do leito exercita o pluralismo moral. Ao mesmo tempo, ela lida com certas expectativas de um consenso moral oficial. É desafio universal.
VII
A beira do leito ensina que o depósito de confiança na expertise clínica do médico pelo paciente, que não tem a mesma acreditação, treinamento e experiência, não autoriza o jovem médico a se sentir competente para deslegitimar/não tolerar as discordâncias que ele, paciente, fundamenta em fortes razões pessoais.
VIII
A beira do leito tem um vaivém de livre trânsito por fronteiras mentais. Para cada processo de deliberação, verdadeira corrida de obstáculos, o jovem médico comporta-se por heterônimos. Cada um deles está mais bem preparado para usar as articulações necessárias, de acordo com o salto necessário para a altura da barra de convergências e divergências, situação a situação.
A harmonia entre os vários “eus” (ideal de ortônimo) maximiza a autenticidade do planejamento beneficente/não maleficente à beira do leito. A pergunta que se faz é: Até quando? Cada atuação do jovem médico sobre a realidade dos acasos da beira do leito é função da combinação de eu-conhecimento, eu-capacidade para aplicá-lo e eu-atitude.
IX
Os dois primeiros “eus” chegam de braços dados à beira do leito pela porta tecnocientífica. O eu-atitude. idealmente, usa a janela de Johari (instrumento de comunicação criado por Joseph Luft e Harrington Inghan que utiliza quatro áreas – livre, cega, secreta e inconsciente) para manter o vínculo com o mundo humano, deslocando olhar profissional para aspectos do paciente que o jovem médico somente pode conhecer se o paciente revelar de alguma forma.
Compreendem aspectos do paciente desapercebidos pelo próprio e que o jovem médico tem condições de enxergar; conceitos julgados verdadeiros pelo paciente que o jovem médico não percebe de imediato; e tantos outros dados não reveláveis ou percebidos até então, que podem vir a serem reconhecidos no decorrer do processo de comunicação. Porta ou janela; o valor está na amplitude da visão de segurança que possa por elas transpassar.
X
A beira do leito faz o jovem médico compreender o significado da ética da responsabilidade (Estou ciente do que fiz ou não fiz). Ele deve responder por princípios e intenções, mas também por consequências tanto quanto se possa prevê-las. É estímulo a atitudes de prudência, para elas distingam impactos que devem valer e que devem ser evitados.
É sinalização que a melhor tomada de decisão possível embute riscos e, vis a tergo, males. O efeito é no corpo do paciente, o que faz surgir a questão: Melhor decisão na óptica de quem? Do jovem médico, do paciente ou de terceiros? Indefinições apesar das evidências científicas e acasos contingentes requerem a cautela, o alter ego da prudência. É nesta disposição mental que se dá a confluência dos princípios da não maleficência e da autonomia, onde é útil a operação de semáforo da Bioética.