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1690- Escolhas (Parte 4)

A integridade mental refere-se ao domínio da pessoa  de sua mente e a imperiosidade do consentimento para revelação ou alteração, salvaguarda para manipulações indevidas. Neste aspecto, o quantum satis ético para sustentar o consentimento do paciente e respeitar a integridade mental deve, não somente, ater-se a opções macro de beneficência/não maleficência do quadro clínico e do prognóstico – restringir o “bombardeio” – ,  como também dispensar impactos coercitivos – o(a) senhor(a) vai morrer se não aceitar… 

Em outras palavras, a adaptação ao ecossistema da beira do leito do Paradoxo das escolhas é útil pois aconselha, justamente, o enxugamento criterioso das opções ao estritamente necessário, o direto ao ponto que mais interessa, ou seja, a evitação de interpretações de violência/negligência/ imprudência na atenção à saúde por excesso desnecessário de opções. É da boa prática, por exemplo, evitar antecipar uma possibilidade de conduta como beneficente, quando ainda hipótese necessitada de sustentação, a fim de evitar que o paciente já conte mentalmente com o procedimento introjetado com seu consentimento/boa expectativa de sucesso quando, finalmente, é descartado por não indicação ou contraindicação médica. Interpretações pelo paciente de desleixo, negligência, desatenção não raramente resultam como frustação da vontade induzida precipitadamente pelo médico.

Se no passado, o paciente tinha restritas opções terapêuticas de fato beneficentes, atualmente, ele pode contar com muitas disponibilidades. Métodos diagnósticos, terapêuticos e preventivos multiplicam-se, estruturas hospitalares se diferenciam, sistemas de saúde gerenciam responsabilidades. Uma decorrência é a elevação da apresentação de escolhas que pode colocar um peso nos ombros do paciente não acostumado às tomadas específicas de decisão, certamente uma carga maior quando da escolha de um não consentimento ao médico, pois tomar a contracorrente das vantagens da tecnociência validada é impactante, ansiogênico e sujeito a culpas e arrependimentos. Por isso, a comodidade emocional  da obediência ao “o doutor mandou”…

A Bioética da Beira do leito entende que no processo de obtenção do consentimento do paciente, há muitas situações onde menos é mais, bom o suficiente, mais adequado do que melhor.  A maturidade profissional que separa o joio do trigo facilita tornar o direito do paciente ao consentimento – escolhas – um instrumento moral do respeito à pessoa, numa forma que concilie integridade mental, privacidade mental, liberdade cognitiva e reais necessidades do corpo.

Contemporaneamente, o médico por mais que não queira, não pode ignorar que quando ele respeita a voz ativa do paciente, insere-a no processo decisório, pode resultar como uma segunda opinião para o paciente, pois o mesmo está reproduzindo uma primeira opinião captada na internet que ampliou o leque de escolhas pelo efeito Dr. Google. Fontes ilimitadas e confiabilidade preocupante competem com a boa qualidade presumida dos ambientes tradicionais de atenção à saúde e a sobrecarga de “opções” acresce chances de relutâncias de consentimento do paciente ao validado e de fato aplicável. Mais é menos! ou será Menos é mais! Não importa a ordem, o que vale é o quantum satis ético.

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