Há um terceiro princípio a ser considerado, o da autonomia. Cada candidato a receptor de um método beneficente- corretamente indicado – tem direito à voz ativa no processo de tomada de decisão. Assim, ele pode manifestar-se por Sim, consinto doutor ou Não consinto, doutor. A negação do paciente a ser respeitada pelo médico na eletividade consta de artigo do Código de Ética Médica brasileiro há cerca de 40 anos.
Cada discordante tem seus motivos para a negativa. Compreendê-los é essencial na disposição do médico de portar-se com paternalismo, o brando. Representa, sem superestimar o poder decisório do médico/medicina, sem posicioná-lo acima do poder decisório dos desejos, preferências/objetivos/valores do paciente, solidariamente, ampliar a compreensão do paciente pela utilidade, além de cuidar das suas inquietações. Exige o máximo cuidado para não praticar nenhum tipo de coerção travestida de intenção protetora. Aplicar um tempo qualitativo é primordial, o que incentiva habilitações profissionais na comunicação empática.
Direcionar o paciente para a aceitação e cumprimento de recomendações, ou seja, conseguir que o Não consinto, doutor seja tão somente manifestação provisória exige muita atenção sobre o que poderia ser interpretado, atualmente, como algum tipo de violência, insistência inconveniente. Há muita vulnerabilidade humana sensível a esta tradução da boa intenção profissional como desrespeito ao paciente, inclusive, porque qualquer esclarecimento absorvido jamais acontece se não invadir a privacidade mental do candidato a receptor, vale dizer, a orientação médica intromete-se no território cognitivo do paciente e promove reestruturações do pensamento/raciocínio.
A intromissão é necessária a fim de “perturbar” e provocar alguma reação que não deixe a mente em paz, que provoque um remoer, ao mesmo tempo em que é preciso preservar a liberdade cognitiva, manter a integridade mental, de modo que as eventuais mudanças ocorram por de fato convencimento interior, novas maneiras de pensar, raciocinar, com liberdade de expressão, inclusive para propostas de ajustes às orientações originais. A “boa intromissão” associa-se à efetiva contribuição da comunicação profissional sobre a vontade do paciente em prol de beneficências visando que o entusiasmo pela mudança não se restrinja a um “voo de galinha”.
Não se trata exatamente de transformar glutões em gourmets, sedentários em atletas, insones em dorminhocos, solitários em socializadores, mas uma atuação influenciadora profissional bem fundamentada que estimula a introjeção da beneficência a ser usufruída da transformação e que se acompanha de um verdadeiro compromisso do receptor consigo, da atuação da voz silenciosa da sua consciência alertando para a culpa do desleixo. A perspectiva biofílica facilita a fidelidade pelo voto da maioria dos pensamentos pela admissão, pela energia que mantém coesas as forças de direcionamento para uma vontade com sentimentos de abnegação, sacrifício e autorrealização.
A Bioética da Beira do leito entende que a manutenção da disciplina no cumprimento de um projeto ligado à própria saúde é facilitada quando o finalmente da tomada de decisão favorável à aceitação de mudanças força um verdadeiro desaparecimento da liberdade de escolha, tal é a intensidade do enredamento interno na ideia da necessidade que atua na capacidade de escolha isenta de ilusões e castelos no ar e plena de compromissos com discernimentos e esforços. O paciente refém da influência do médico alinhada à ética e à moral é concepção hipocrática e como tal não admite perjúrio ao Juramento de Hipócrates.