Aquele meu interlocutor ocasional não é oficialmente um idoso ainda, mas sua fala me alertou que os próprios idosos, curiosamente, são agentes de etarismo, os menos contra os mais velhos. Talvez seja um complexo da eterna juventude como se a boa disposição do corpo e da mente fosse causada pelo uso contínuo de um elixir da juventude que tem o egocentrismo como efeito colateral.
Será que a concorrência que se observa entre adultos jovens vai migrar para os idosos na medida em que se tornam mais numerosos na sociedade? Será que a linha de corte de 65 anos vai ser elevada como aconteceu com a aposentadoria compulsória de 70 para 75 anos no serviço público?
Um projeto Matusalém para identificar evidências atualizadas sobre a vida dos idosos pela revolução demográfica parece ser muito bem-vinda. A velha guarda rejuvenesce e afasta da velhice antigos estereótipos, preconceitos e atitudes! Já é de um passado longínquo a cultura de um sentimento de futilidade, estagnação, negativismo e desesperança sobre o envelhecimento, uma visão de irremediável declínio humano, disfunção intelectual e inutilidade pela senilidade.
Por outro lado, é preciso ter em mente como alerta permanente não somente que o venerado médico Sir William Bart Osler mencionou, sabe lá se brincando ou não que o clorofórmio deveria ser um presente de aniversário de 60 anos de idade, como também o romance O Período Fixo de Anthony Trollope do século XIX que aos 67 anos – a idade com o que o autor publicou e veio a falecer após poucos meses – os idosos deveriam ser internados numa espécie de escola a fim de serem cuidados e preparados para sua eliminação antes de completarem 68 anos, justificável como antecipação aos males da velhice e improdutividade /fardo social.
Ah! Ia me esquecendo, ele disse também que a demência de Alzheimer é uma punição pela insistência contranatural de continuar vivendo, segundo ele, a doença apareceu coincidente com a elevação da expectativa média de vida da população, uma forte evidência, irrefutável mesmo, segundo ele. Pois é, a mente humana surpreende pela criatividade, faz explodir interpretações enviesadas e não faltam seguidores para todas elas.
A senhora finalmente saiu, teve a gentiliza de me agradecer a deferência, e eu entrei. Impressionante, o encontro fortuito tão rico em conteúdo terminou pobremente com um simples e educado dá licença da minha parte para ele, pois é, nem fiquei sabendo como se chamava. Poderia classificar como um passatempo. À saída, até me ocorreu despedir-me e perguntar o nome, mas para surpresa minha, ele não estava mais na fila, a pressa pelo rejuvenescimento deve ter ficado mais forte do que a necessidade do atendimento ao quase idoso... Ou será que ele nunca existiu?