Registrei aquela pérola da criatividade humana, aliás, nenhuma me surpreende mais, as coleciono como fonte inspiradora para textos sobre o valor da Bioética acerca de atitudes médicas em confrontos com pacientes no ecossistema da beira do leito. Não uso a expressão Ele tem QI de ostra que ouvi muito na minha juventude no Rio de Janeiro, é hostil, mas tenho para mim que apesar de tudo é capaz de criar pérolas…
O cavalheiro olhava mais para o relógio do que para mim, os movimentos dos minutos digitais lhe perturbavam tanto quanto me ver parado na sua frente porque a senhora a quem dei a vez não terminava o atendimento, por mais que pretendesse apenas o seu olhar não conseguia fazer abrir a porta que daria movimento à fila.
Ele falava com tanta naturalidade, era algo plenamente introjetado, que nem se apercebeu que me ofendia, um octogenário, ou seja, um idoso com mais de 15 anos de experiência na designação chancelada pela sociedade. Na verdade, visto mentalmente uma armadura medieval antietarismo forjada por muitas agressões, todavia, ela não é totalmente protetora, diria que possui sensores que me permitem calibrar reações.
Estimei que ele tivesse mais de 60 anos de idade pelas rugas no rosto e manchas nas mãos, respondeu 64 anos quando lhe perguntei e a seguir uma nova e contundente pergunta, um caprichado troco na verdade, encerrou abruptamente a conversa e com o meu prazer de ver uma expressão de muito ofendido: O senhor irá, então, se suicidar assim que completar 65 anos, falta pouco, não é mesmo? Ou já está procurando casa para morar nas cidades que mencionou? Eu estava destravado e fui além, a tal da armadura mental não prejudica o ataque: Quem sabe possa ir até a borda da Terra que certamente entende que é plana e se atire no precipício do cosmos, com sorte pode encontrar um aeroporto para embarcar na sua pretendida viagem rejuvenescedora.
Não acreditei que dissera aquilo, mas disse, ofensas sorrateiras como a que sofrera costumam desencadear reações em espelho cruéis e, ademais, me sentir liberado como um atributo da terceira idade, reforçou que a idade avançada é uma nova oportunidade de adolescência, ela faz eclodir o adolescente com suas atitudes provocativas e intrépidas que jamais desaparece de dentro de nós e que a sensação de liberdade de se expressar ajuda a fazê-la refluir para os comportamentos. A diferença é que agora conhecemos de fato o que acreditávamos conhecer lá pelos 15 anos de idade. Chamam de maturidade. Chamo de licença etária.