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1629- Uma crônica muito aguda (Parte 1)

A Bioética da Beira do leito simpatiza-se com a elaboração de crônicas na medida em que elas são reveladoras da infinita pluralidade de fontes de confrontos do cotidiano numa sociedade.

Outro dia um senhor de cabelos brancos que esperava comigo a vez de ser atendido, irritado com a antecedência preferencial dada a uma idosa que acabara de chegar e também comigo por ter cedido a vez à senhora recém-operada, disse em alto e bom som que existe muito velho no mundo, xingou a indústria farmacêutica, a causa principal para ele do excesso etário e que só deseja elevar seus lucros financeiros e sugeriu com evidente convicção que todos os idosos fossem morar ou em Porto Velho em Rondônia ou em Vila Velha no Espírito Santo, seria mais coerente.

Confessou-me que odiava esperar, estava com pressa, muito ansioso para voltar para casa e continuar pesquisando sobre o paradoxo dos gêmeos – verbalizou vocalizando sílaba por sílaba numa clara intenção de impressionar pelo saber . Comentou que se interessara depois que leu num artigo em inglês – sou fluente, sabe – que Albert Einstein, o físico da Teoria da Relatividade – preocupou-se em esclarecer, suponho para caso eu não soubesse – disse que se um homem  realizar uma viagem ao espaço a uma grande velocidade, ao voltar, estará mais jovem do que seu irmão gêmeo que permaneceu na Terra. Baixou o tom de voz, aproximou-se de mim e confidenciou que até tinha um gêmeo, mas que ainda não lhe dissera nada, receava que o irmão se adiantasse a ele.

Reclamava que tudo estava ficando muito diferente enquanto ora esfregava o braço esquerdo que doía após ter escorregado no piso molhado, a chuva não parava, ora mantinha o cacoete de ajeitar as hastes dos óculos com lentes fundo de garrafa, além de se preocupar com a fila que crescia, receoso que mais alguém o deixasse para trás.  O seu celular tocou, olhou o número, não atendeu e resmungou que só tinha gente querendo dar golpe, nisso concordei. Não era um encontro marcado, mas foi um encontro marcante.

O meu interlocutor não pretendia debater, apenas afirmar e reafirmar, supunha-se um observador crítico perfeito e por isso, bastava o seu monólogo. Eu, por minha vez, não estava com pressa, saquei que estava diante de uma oportunidade de conhecer mais um tipo. Ouvi atentamente e até apreciei sua desenvoltura com gestos e expressões faciais que atestavam estar bem convicto do que dizia. Falas expansivas, sem filtros, abruptas, efervescentes mesmo, com vigor por seus ingredientes de uma sinceridade que pode machucar mas ao mesmo tempo traz um band-aid. Na convivência com a Bioética apreendi o valor destas amostras do mundo real.


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