Decidir pelo Não resulta em não gerar descendente enquanto decidir pelo Sim significa probabilidade, mas não certeza, da realização do desejo em função de variáveis pré-gestacionais, gestacionais e neonatais atendo-se ao ciclo gravídico-puerperal.
Estas considerações fazem do útero um órgão peculiar do corpo humano de influência de destinos na medida em que não somente renova constantemente sua “função preparatória”, como também se sujeita a ser um intrinsicamente saudável que pode conter anormalidades. Desdobramentos deste aspecto de tão somente um locus de acontecimentos resultam em renovados interesses por vários campos do saber. O útero é órgão altamente representativo do valor da transdisciplinaridade no campo da Saúde, um além e através de disciplinas que admite a convivência do conhecimento com desconhecimentos, imprevisibilidades e inesperados.
Cada maternidade efetiva, ao conceber um futuro desejado para o amanhã que puera o ontem, é forjada por aspectos transgeracionais e culturais, e sua potência se completa ao longo da gestação, acompanhada por diversas reestruturações pessoais. O maravilhoso potencial adaptativo da mulher, tanto no período pré-gestacional quanto transgestacional, que se articula à reprodução da espécie, representa a capacidade de transformar o preenchimento de um vazio anatômico por um óvulo fecundado em mudanças multidimensionais. Um verdadeiro devir!
Bioamigo, a soma das maternidades que sustenta o potencial renovador da humanidade pode ser reduzida à unificação como atividade placentária para a perpetuação do Homo sapiens, vale dizer, dependência ao protagonismo do útero, haja vista que 100% dos atuais oito bilhões de seres humanos presentes na Terra terem obrigatoriamente habitado este órgão feminino.
Um espermatozoide “vencedor” e um óvulo receptivo constituem a matéria-prima biológica para nova vida, proveniente de duas pessoas. Por isso, ninguém participa da própria alocação num útero ou na escolha de sua
ancestralidade. No entanto, todo ser humano adquire marcas do habitat uterino mais ou menos explícitas. O útero, assim, constitui-se num espaço preparatório para novos tempos, que envolve uma das mais intensas e enigmáticas relações humanas — a diádica conexão entre mãe e concepto. Esta relação se presta a diversas interpretações sobre o nível de apego materno ao futuro descendente, enriquecidas por contribuições folclóricas, literárias e culturais. A Bioética as inclui com o devido senso crítico em sua abordagem transdisciplinar.
Tudo que comentamos até agora tem algum grau de influência sobre questões de reprodução humana mais simples e mais complexas do binômio saúde/doença que se apresentam para médicos e profissionais da saúde em geral. Razão para que o habitat uterino seja constantemente valorizado pela Bioética da Beira do leito, direta ou indiretamente até mesmo em situações que não parecem ter alguma relação. Sempre haverá!