Hipócrates em sua tarefa de criativo transformador de relações humanas sabia bem dos limites do eu-posso por mim mesmo/eu-quero/eu preciso e a medicina despertou tendo como pano de fundo eu-quero/eu-não posso por mim mesmo/eu preciso do outro.
Ademais, o Pai da medicina percebeu a imperiosidade de haver limites quanto a uma liberdade de atuação e que ficou conhecido como non nocere, princípio que perdura até hoje, renomeado como não maleficência. A preocupação com o mal na pretensão pelo bem atesta que Hipócrates foi um pioneiro da Bioética.
A medicina se desenvolveu através de séculos agregada a um continuado nível alto de soberania na sociedade, apesar das limitações a sua beneficência. O Código de moral médica de 1829, nosso primeiro Código de Ética médica continha: Os enfermos não devem fatigar o medico com narrações de circunstancia e fatos são relacionados com afecção. Portanto, neste ponto, limitar-se- ao a responder em termos precisos as perguntas que se lhe dirijam, sem estender-se em explicações ou comentários que, longo de ilustrar, tendem mais a obscurecer a opinião do medico; O enfermo deve implícita obediência às prescrições médicas, as quais não lhe é permitido alterar de maneira alguma. Igual regra é aplicada ao regime dietético, ao exercício e qualquer outras indicações higiênicas que o facultativo creia necessário impor-lhe.
Só recentemente foi que esta identidade se reduziu. A contenção teve a participação da Bioética influente no século XX. Assim, se por um lado cabe manter a cogitação de clínica soberana, por outro lado a figura do médico admite flexibilidade à consideração de uma autoridade suprema.
Constituiu-se, assim, o paradoxo de quando a medicina era pouco eficaz, não havia o não consentimento e quando se torna mais eficaz, a sociedade admite a recusa. A explicação está essencialmente atrelada à potencialidade de malefícios orgânicos, ao conselho para abandono de hábitos “queridos” e à impossibilidade de preservação de posições sociais e profissionais adquiridas em função da aplicação de métodos terapêuticos e/ou preventivos. O amargor do remédio que promove controle da morbidez das doenças.
No processo de delegação ou não ao médico da recomendação/aplicação de métodos pelo paciente para usufruto da sua saúde, a sociedade contemporânea dissolveu certos padrões da beira do leito tradicional reunidos como submissão do paciente ao médico e o Não doutor tornou-se admissível etica e legalmente.