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1464- Non nocere imortal (Parte 15)

Mas alguma persistência dos primórdios  costuma provocar uma dependência retrospectiva do mérito original que molda o processo evolutivo consoante com realidades. Uma das contribuições mais relevantes de Hipócrates a seus futuros filhos universais foi o fundamento do comportamento médico eternizado por Non nocere – Não causar danos. Vinte e cinco séculos depois, o desrespeito a este preceito no decorrer da primeira metade do século XX, simbolizado por Tuskegee e pela Segunda Guerra Mundial foi determinante para que o espírito forjado por Hipócrates deixasse de vagar e se assentasse com o neologismo Bioética pela coragem moral de Paul Max Fritz Jahr (1895-1953) e de Van Renssalaer Potter (1911-2001). O medo da desumanização “científica” como tensão, excitação e pressão estimulantes de estruturações para melhora da qualidade sobre segurança humana.  A Bioética contribuiu para a conscientização de uma visão realista que combatesse a ilusão de “normalidade” pelo desligamento que acontece quando não há o enfrentamento de fatos.

Hipócrates reconhecia o perigo de um poder sobre o doente destituído do recurso beneficente. Assim, posto que incipiente, e por definição confuso, foi enfático que o exercício da medicina não representasse a personificação de uma sucessão de aventuras pessoais egocêntricas, folclóricas, lendárias. Pelo contrário, ele teria que admitir o desenvolvimento de uma plasticidade racional às circunstâncias mórbidas, um raciocínio brilhante para a época de tanta filosofia e inspirado na conscientização que os conhecimentos então disponíveis só poderiam progredir se houvesse um contato inter-humano verdadeiramente influente no bem geral.

Cada nova observação favorável provocaria um recuo estratégico para remontar o conhecimento e assim energizar o progresso, ou seja, uma reação positiva pelo (re)conhecimento organizado. Da clínica para a pesquisa nos dias atuais, aprovar a hipótese caso não seja desmentida. Neste contexto, Hipócrates foi um ficcionista, antecipou que o progresso seria o destino da medicina, que ela não se perderia no caminho ou retornaria aos deuses gregos, algo como Não importa o caminho que você escolha, contanto que dê em algum lugar, escrito por Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll, 1832-1898).

Desconheço se Hipócrates sabia do mito de Ícaro quando para encontrar saída para um labirinto da saúde deu asas para voos humanos em medicina na ilha de Cós a cerca de 300 Km da ilha de Creta, habitat do destrutivo Minotauro – analogia à doença. Coincidentemente com Dédalo, o pai de Ícaro, ele compartilhava a importância da humildade e do respeito às orientações dos mais experientes. Dédalo disse a seu filho Ícaro que em função das asas construídas com penas de pássaros coladas com cera de abelha, que ele não voasse nem muito baixo onde a umidade emperraria a mobilidade das asas, nem muito alto para a cola não se derreter ao calor do sol, conselho ajustável à boca de Hipócrates sobre a necessidade de o médico evitar chances tanto de funcionar mal como de queda por deslumbramento. O final do conselho de Dédalo permaneça perto de mim e estarás em segurança pode ser ipsis literis uma fala hipocrática, quanto menos voos arriscados , maior acúmulo de milhas éticas. Mais estimulante, entretanto, para aqueles que entendem que sentir-se num labirinto é habitual motivador de Alô Bioética! é figurar Hipócrates como o fio de Ariadne que guiou Teseu para fora do labirinto.

De repente, sou transportado para o Ginásio Pedro II, para um aula de História Geral. Aviva-se a cena do professor esforçar-se para “sabermos tudo” sobre Ícaro, interrompido pelo nosso colega gaiato, língua solta contumaz com o característico  sotaque carioca, que gritou: Professor porque ele não voou à noite?  A cera não teria derretido… Riu-se, mas a lição, então, seria outra, se o voo tivesse tido êxito, não um alerta sobre decorrências do desejo que se transforma em esperança e que imediatamente vira fé (percebido como já real), sobre  a ilusão da combinação de indubitável razão e certeza do bom êxito.

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