
Dominação como obediência a determinado mandato nas particularidades do ecossistema da beira do leito não deixa de apresentar encaixes nos três tipos organizados por Maximilian Karl Emil Weber (1864-1920). Há a dominação carismática desde o paciente pelo entendimento/reconhecimento das qualidades profissionais do médico e legitimidade da competência, de modo associado a uma confiança construída e articulada a se tornar cliente, e que se mostra, habitualmente, instável em função de circunstâncias evolutivas.
Há a dominação tradicional referida a uma fidelidade difusa à profissão de médico e que apresenta estabilidade social e efeito de consciência coletiva sobre a figura de médico – o olhar do médico constituinte da subjetividade da sociedade-, como possuidor inequívoco de compromisso moral simbolizado no Juramento de Hipócrates, sabedoria reconhecida, mesmo sendo médico ainda desconhecido do paciente quanto à competência, como num atendimento de emergência em inédito ambiente; corresponde ao “eterno ontem” de costumes santificados por valores e hábitos com fortes raízes na sociedade em que a obediência se faz mas aos costumes do que ao
médico propriamente dito. Liga-se ao somos “disciplinados” e “subjetivados” pela medicalização, pois discursos, práticas e instituições são cristalizações de relações de poder dito por Michel Foucault ao tratar do arquipélago do poder. Há a dominação legal, ligada a estatutos, como a hierarquia numa equipe de saúde em função do conhecimento e da habilidade acumulados.
A Bioética da Beira do leito incentiva apreciações de mescla destes três tipos de dominância no âmbito da beira do leito aos princípios da Bioética com a finalidade de ajustar a conexão médico-paciente aos entendimentos atuais sobre compromissos da composição, modos de comunicação e clima de parceria.
A conexão médico-paciente é relacionamento sui-generis que expressa dominâncias em diversidades de conjugação entre indispensabilidade da medicina atualizada num enorme universo de 55 especialidades médicas filiadas à Associação Médica Brasileira e 59 áreas de atuação da Medicina reconhecidas pelos Conselho Federal de Medicina, arte da sua aplicação pelo médico cada vez mais amarrada a ferramentas tecnológicas e realidades da receptividade pelo paciente cada vez mais plural. A pandemia pelo vírus SARS-CoV-2 testemunhou como consultas por meio de aplicativos de mensagem que eram previamente rejeitadas na comunidade médica como antiéticas tornaram-se aceitáveis e desejáveis.
Carisma, tradição e legal se imbricam em proporções distintas caso a caso, ao acaso mesmo, com os princípios da Bioética e configuram permanente tensão interpretativa entre genuína colaboração por pessoas e estado de dominância e que é enfeixada com direitos e deveres na área da saúde.