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1249- Valências no ecossistema da beira do leito (Parte 11)

A Bioética da Beira do leito enfatiza a relevância das iniciativas para resolução de ambivalências em prol do prognóstico de (a)casos da beira do leito, pois a eventual persistência das duas valências a respeito de uma recomendação terapêutica representa um binário competindo entre si, pleno do conflituoso, mentalizado como uma interrupção niilista e que tende a provocar a “aplicação do aplicável” com significativo atraso. É a forma prejudicial da ambivalência subjetiva, a de vir a se resolver – ou não- com perda da oportunidade da objetividade.

Pesquisas sobre ambivalência destacam componentes afetivos, cognitivos e comportamentais como tríade-fonte de interrogações, tanto imperiosa em função da prudência na composição da decisão, quanto necessitada de eliminação/conclusão pelo zelo (aplicação após decisão). Num contexto de prazo de validade para a ambivalência no ecossistema da beira do leito, vale dizer, processo em direção à univalência- cabem destaque para aspectos individuais e culturais do lidar com contradições e do receio de tomar uma decisão equivocada. Paradoxalmente, eles podem motivar um Sim “automático” do paciente à proposição do médico, expressão do alívio por evitar a sensação de assumir responsabilidade na tomada de decisão (“…Confio no doutor…”).

Todavia, pode tratar-se de uma modalidade líquida da confiança, dentro do sentido da modernidade líquida de Zygmunt Bauman (1925-2017). A minha convicção sobre a redução atual da construção sólida de confiança no profissional da saúde sustenta-se na vivência como delegado do CREMESP, onde testemunhei estranhos, desrespeitosos – e impensáveis- representações contenciosas por paciente/familiar. Acresce que a medicina persiste ciência da incerteza e arte da probabilidade conforme afirmado por Osler e, cada vez mais em nossa sociedade, quando de precisa de algo, a compreensão não é suficiente, deseja-se o que funciona, ou seja, saber mais a respeito dos limites da medicina não reverte o desejo.

Bioamigo, no dia a dia do testemunho de mescla de sentimentos de pacientes, instabilidades de pontos de vista, incapacidades para construir escolhas, conflitos internos por influências externas para firmar direcionamentos, tendemos a considerar o paciente que se manifesta ambivalente sobre dar ou não consentimento como uma pessoa difícil, até consumidor da paciência. Mas, é preciso considerar como a vulnerabilidade física e emocional impacta no ser humano, como sua força dramática provoca reações de inércia, como aclarar e verbalizar pode ser angustiante.

O que para o profissional da saúde é uma rotina para a qual desenvolve um nível de acolhimento que idealmente concilia níveis adequados de racional e de humano, para pacientes, a situação pode se constituir em graus variáveis emocionalmente desumana, muitas vezes com a sensação que é possível alguma fuga, mas impossível escapar.

Numa situação clínica reversível, embora seja impossível afirmar nulas chances de insucessos, é essencial que o profissional da saúde exponha ambas as valências do uso dos métodos, numa linguagem accessível sobre prós e contras que evite lacunas a serem preenchidas por analogias providenciadas pela memória e pela imaginação que associa imagens, intuições e suposições, o que significa que há uma justificativa ética para a ambivalência no processo da informação técnica ao leigo. Na sequência, caso haja a persistência no paciente de ambas as valências no processo decisório, cumpre ao profissional da saúde interessar-se por razões, incluindo possíveis influências de aspectos subconscientes, relacionados a experiências de vida, a modos de lidar com o estresse, à participação da depressão subclínica e a efeitos de fármacos, afora fatos externos.

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