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1225- Trans e pós-humanismo na beira do leito. Uma leitura com o apoio da Bioética (Parte 26)

Um complicador da alternativa ou auxiliar ou substituto é a sobrecarga de informação e de dados relacionada à quantidade, à diversidade, à novidade e à complexidade e ao limite da capacidade humana para processar. É tema que provoca reflexões acerca da competência para  lidar com a “patologia da informação”, o que é facilitado pelo trabalho em equipe – aquele de uma dezena de pessoas presumivelmente substituída por único computador/robô, sintonizado “na nuvem”. Paradoxalmente, nuvem tornou-se termo antinebulosidade.

O direcionamento precavido para aperfeiçoamentos na área da saúde conforme distintas naturezas encontra ressonância no par de princípios da Bioética representado por beneficência/não maleficência e sua ligação com a medicina baseada em evidência, pelo objetivo da integração utilidade/eficácia com atenção a adversidades.

O valor da não maleficência para o ser humano tem um registro histórico emblemático: O monge Basil Valentine (1394-1450) no século XV observou que porcos engordavam quando eram alimentados com um determinado metal que obtivera pelo conhecimento de alquimia. Ele, então, administrou para monges emagrecidos pela carência de comida à época. Todos morreram. A causa-mortis foi a ingestão do elemento químico. Por isso, o nome francês antimoine que originou antimônio (antimonge).

O sentido progressista – marchas-à-ré são ocasionais- da aplicação dos princípios da Bioética no ecossistema da beira do eito visa a mais qualidade da humanidade pelo maior benefício e menor malefício associados a aplicações de recursos tecnocientíficos idealmente pré-aprovados. Cada avanço, cada expectativa de reversão de impossibilidades precisa que o visionário de pós-humano não despreze o modo transumano/ultra-humano de precaução, vale dizer, a evitação de desgarres cientificistas. Na perspectiva da transformação/extinção humana, vale considerar que Tudo se transforma conforme dito por Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794) é habitante influente na ilha da Utopia. 

Xenotransplantes – como solução contra escassez de órgãos- ilustram e fazem pensar, inclusive, que a utopia tem também seu paradoxo e que é representado pela simultaneidade de objetivos coletivos nos sonhos de aperfeiçoamento e de contrapontos por interesses e crenças individualizados. Quero crer que, neste contexto, por exemplo, um rabino não desaconselharia um judeu a aceitar um xenotransplante de porco, entendendo que a vida está acima de tudo.

A Bioética da Beira do leito enfatiza que o médico – e o profissional da saúde em geral- ao habitar mentalmente a ilha da Utopia e  fisicamente permanecer na beira do leito, promove um intercâmbio com potencial de transgressão ao realismo do profissionalismo por uma abertura respeitosa ao rigor tecnocientífico. Como disse Sir Winston Churchill (1874-1965): Você pode realizar progressos diariamente. Cada passo pode ser útil, embora exigente de mais caminhada, mais ascensões, mais aperfeiçoamentos. Você sabe que nunca alcançará o ponto final, mas isto não é motivo para desencorajar, é motivo para acrescer prazer e glória à escalada. Ademais, cabe o sarcasmo de George Bernard Shaw (1856-1950): O homem sensato adapta-se ao mundo enquanto que o homem insensato persiste tentando fazer o mundo se adaptar a ele. Portanto, o progresso depende do insensato… Não faltam endossos de realizações que sugerem uma fluidez de fronteira entre sensatez e insensatez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bioamigo, creio que o seu smartphone esteja no momento ao seu alcance e alvo de uma atenção em segundo plano. O meu está. A acelerada receptividade do Homo sapiens ao smartphone dá uma ideia concreta de como o artificial tecnológico flui fácil para se mesclar ao biológico e a simbiose provoca probabilidades pós-humanas acerca da saúde, do bem-estar, da cognição e do emocional.

O carismático aparelho que ganhou a intimidade do Homo sapiens numa notável conexão dedo-cérebro, cérebro-dedo, está tão presente, exerce tanto poder sobre a instância psíquica e sobre a privacidade, sobre o trabalho e o lazer, faz-se um alvo robusto para mídias sociais, consome tanto tempo e energia, sustenta um universo de conjecturas sobre privilégio e opressão, que, por exemplo, o jovem da geração Z  (entre a segunda metade dos anos 1990 até 2010) desde o nascimento ambientado no digital, pode ser figurado como um aprendiz de ciborgue numa apreciação sociotecnológica. Em outras palavras, o domínio do smartphone induz a configurações do interior do ser humano que admitem novas significâncias reunidas pela inserção dos prefixos trans e pós à noção clássica de humano.

Não faltam conflitos de interesse orbitando entre objetivos coletivos de bem para todos e objetivos personalistas de bem para poucos numa novidade/inovação, inclusive  com compartimentalizações para certas comunidades como as de doenças órfãs. Neste contexto de bem aqui e não-bem acolá, é importante evitar maniqueísmo (profeta persa Mani, 216-274) de ou somos pró ou somos contra.

Na peneirada sobre mais favorável/admissível ou menos favorável/inadmissível a determinado objetivo, o eventualmente retido nas malhas pode servir de matéria-prima para novas composições e ajustes de concepção. Como dito por Arthur Schopenhauer (1788-1860): toda verdade tem três estágios: primeiro é ridiculizada, depois é violentamente oposta e por fim é aceita como auto evidente. Lembremos do heliocentrismo de Nicolau Copérnico (1473-1543) contestada pela Igreja Católica que adotava a teoria do Geocentrismo de Claudio Ptolomeu (90-168 ), na sequência comprovada por Galileu Galilei ( 1564-1642), Johannes Kepler (1571-1630) e  e Isaac Newton.

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