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1189- O novo normal- imperfeito (Parte 1)

A pandemia COVID-19 eclodiu, expandiu o conceito de globalização e provocou sérios impactos sobre os diversos aspectos do sistema de saúde no Brasil. Intrometeu-se em tudo, ninguém deixou de ser afetado. A Saúde tornou-se tema 24/7 nas distintas formas de comunicação existentes. Informações simplificadas de complexidades redundaram, como não poderia ser diferente, em enorme heterogeneidade de repercussão individual, levando a tensões muito acima de possíveis preparos para enfrentar crises. Passaram a conviver com alta ansiedade contaminados e contaminantes, ninguém isento destas potencialidades. Um quadro com níveis de desespero suscitando o uso das adaptabilidades a crises de cada um.

O médicos ativos – e os profissionais da saúde em geral- nunca haviam passado por situação análoga e de certa forma passaram a considerar no coletivo o que conheciam de reação individual a diagnósticos preocupantes, dificuldades terapêuticas e incertezas de prognóstico. Cada paciente tornou-se um texto de aprendizado não editado e Serviços rapidamente foram compondo as orientações em feedback com as realidades. Uma sensação de pesquisa no labor assistencial e exigente de alto grau de competência, inteligência emocional e infraestrutura.

Uma decorrência do isolamento social anticontaminação foi a interrupção da atenção às necessidades habituais de saúde de pacientes com doenças crônicas. Houve privilégio das preocupações sobre mistanásia com foco no que poderia ocorrer pelo COVID-19 e decorrente desvio no que aconteceria nas demais situações. Assim, o Art. 1º – É vedado ao médico causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência, a respeito da responsabilidade profissional, de repente ficou sujeito a novas interpretações em função dos cuidados privilegiados com a pandemia.  Recomendar ao paciente não ir ao hospital como até então fazia convicto de ser a mais adequada orientação compunha o conceito de zelo profissional.

Repentinamente, houve o incremento da consulta não presencial por meio de aplicativos pela aceleração de uma visão positiva de instrumento ético até então sob questionamentos, uma lição sobre o valor do interesse nas mudanças comportamentais. A teledistância passou de fonte de descuidos no atendimento com a doença para instrumento de cuidado com a saúde.

Observou-se a participação mais ativa da sociedade sobre a Saúde, com incursões acerca da filosofia da ciência voltada para a aplicação na saúde. Ângulos, sociais, econômicos e políticos juntaram-se às interrogações atinentes à sustentação das condutas pela medicina baseada em evidências. Qualquer iniciativa caía necessariamente num dissenso. O respeito ao direito à autonomia individual sofreu o peso da heteronomia com visão coletiva. Contraposições acerca da dualidade individual/coletivo exacerbaram-se. Muitas dúvidas, temores continuados, cada intenção de tomada de decisão passível de críticas.

Poder-se-ia conjecturar que estaríamos abrindo um parênteses no status quo, o fecharíamos após um período e tudo voltaria ao estado prévio. Não foi bem assim e, atualmente, as forças atuantes essenciais são a vacina e o comportamento quantitativo e qualitativo do vírus SARS-CoV-2.  Devemos falar em persistência geral da anormalidade ou em ilhas de normalidade adaptativa?

Em meio aos infortúnios, pensamentos soltos sobre o que a pandemia poderia estar dizendo à humanidade, considerando, então, uma forma de linguagem cifrada a ser bem ouvida e interpretada, surgiram futurólogos como bastantes Champollions (Jean-François, 1790-1832) decifradores de uma pedra da roseta virulenta. Eles apressaram-se a falar em um novo normal, conjecturando situações em que amarras do cotidiano poderiam ser liberadas por variações do mundo percebido e do sujeito que percebe. Tais sonhadores  tipicamente pensaram alto de acordo com suas maneiras e pretensões. Por exemplo, previu-se que o trabalho como estávamos acostumados sofreria mudanças definitivas na relação fonte de subsistência/conforto/efetividade/prazer.

A teleconsulta é um indício das modificações para a área da saúde. Até o início da pandemia Covid-19, o tele ligado a consultas referia-se fundamentalmente ao telefone, portanto sem imagens. Muita atenção ética é preciso a respeito de utilização da teleconsulta, essencialmente pelo acréscimo da imagem que dá uma sensação de presencial e, assim, pode levar a abusos. Uma coisa é entendê-la admissível de eticidade, incorporá-la ao rol de utilidades do cotidiano do atendimento, outra coisa é a adequação das realizações aos preceitos éticos.

A Bioética da Beira do leito entende que a teleconsulta não deve ser um procedimento proibido em tese, já mostrou sua pertinência, mas as circunstâncias favoráveis caso a caso necessitam de muita ponderação ética. Vale lembrar que certas tradições da medicina são difíceis de fugir do conceito de imutáveis como a distância íntima entre médico e paciente para a realização do exame físico.  Assim, a teleconsulta ilustra como qualquer ideia de novo normal na área da saúde exige juízo crítico permanente, efeitos manada são preocupantes para a saúde ética, moral e legal dos atendimentos.

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