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1153- Bioética e princípio da autonomia (Parte 2)

A Bioética, porque lida com decisões complexas, porque envolve-se com a pluralidade da condição humana, porque valoriza a dignidade e os direitos humanos, tem dificuldade em apresentar-se baseada em evidências empíricas. Desta maneira, abraça dissensos de interpretação, ou seja, cada caso é uno em apreciações éticas/morais/legais. Por mais que haja acúmulo de saber sobre algum tema pertinente à Bioética, ele será insuficiente para estabelecer uma doutrina universal. Aspectos culturais ilustram a ressalva. 

Assim, a justaposição pedagógica entre conhecimentos tecnocientíficos, habilidades para a aplicação, atitudes humanas e Comitê de Bioética é desejável para a prática de uma mentalidade alargada perante as instabilidades frequentes causadas pelas repercussões humanas do diagnóstico, da terapêutica, da prevenção, do prognóstico.

Paradoxalmente, a substituição da contemplação compassiva do médico – como observada em telas clássicas- por uma sortida e crescente disponibilidade de recursos beneficentes trouxe a necessidade de não se perder o foco humano e social das ciências da saúde, até porque existem as frustações de expectativas, as más evoluções e os efeitos adversos. Há a verdade, há o rigor, há o método, mas há também o simbolismo que cada ser humano apresenta uma exclusiva impressão digital, um recado da natureza sobre a individualidade que a Bioética admite como imprescindível fio condutor de condutas. Conexões médico-paciente personalizam-se em composições bilaterais de Devo? Posso? Quero? que movimentam lápis e borracha para o mais adequado retrato.

A beira do leito é local onde a história natural de doenças encontra-se com o exercício da medicina- e das ciências da saúde de modo geral – e resultam potencialidades evolutivas articuladas a condutas. Cada encontro gera interações próprias e as efetivas realizações – os resultados evolutivos- acontecem numa tensão entre possibilidades expansivas cogitadas nos planejamentos e limitações – previstas ou não.

Pretende-se o melhor, obtém-se o possível, é expressão realística do otimismo na beira do leito cada vez mais aplicável em face às crescentes complexidades que envolvem o estado da arte, o aprendizado técnico, o desenvolvimento da identidade profissional, a pluralidade da condição humana e as interpretações éticas e morais. A excelência na beira do leito forja-se na cumplicidade responsável entre a ciência que contribui com evidências e a ética – vale dizer o interior do profissional da saúde- que provê as justificativas para fazer ou não fazer.

O conceito de melhor interesse do paciente costuma ser empregado na conjunção da ciência e do humanismo, dando cunho de prática benéfica para a humanidade e, assim, minimizando interpretações de cientificismo – a ciência pela ciência. Numa sociedade pluralista, a afirmação sujeita-se a vieses de várias naturezas. É do mundo real a existência de diferenças significativas entre preferências do paciente e expectativas do profissional da saúde, a necessidade de uma rápida captação pelo paciente sobre informações inéditas para ele, a dificuldade numa medida exata sobre razoabilidade acerca da manifestação esclarecedora ao paciente pelo profissional da saúde.

Ademais, há um aspecto semântico. Melhor, no caso de melhor interesse é um adjetivo. Adjetivos convivem com escalas de vagueza. Na beira do leito nem sempre há consenso na conexão médico-paciente sobre acima do bom, o mais alto grau de qualidade para as necessidades de saúde do paciente. O uso do termo melhor, embora útil pela economia de palavras, é expressão passível de contradição na conexão médico-paciente.

Assim, bioamigo, discutir com capacidade técnica, respeito e tolerância é preciso! Alô Bioética!

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