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1055- Convicção e responsabilidade (Parte 5)

ética da convicção pressupõe um tudo ou nada. É pautada na tríade crença inflexível sobre o fim, motivação por um ideal e desconsideração sobre um leque de possíveis consequências, configurando, assim, um dever não importa a gama de efeitos previsíveis ou não.

Verifica-se, pois, analogia com um corriqueiro estou convicto da indicação porque sustento-me  em evidências científicas validadas, base do princípio da beneficência, mas difere por não examinar decorrências dos princípios da não maleficência e da autonomia.

ética da responsabilidade, por sua vez, considera a avaliação crítica de meios cogitáveis e a previsibilidade sobre fins, ou seja, estimula a análise de conformidades, visa ao resultado mais consensual, pois reconhece a interdependência entre racionalidade e ética. Percebe-se que a ética da responsabilidade prepondera sobre a ética da convicção na prática profissional contemporanea na beira do leito, inclusive pela influência dos fundamentos da Bioética.

Todavia, em função das complexidades da beira do leito, a Bioética da Beira  do leito entende que pode ser admissível que uma forte convicção do paciente provoque um endosso pelo médico de modo que uma contraposição do paciente passe a dominar a visão de responsabilidade, um comportamento tolerante do mundo real da diversidade da condição humana e que elimina uma visão de oposição à competência profissional.

A crença religiosa tem o potencial de admissão de uma autenticidade individualizada que suplanta uma exigência tecnocientífica. O paciente Testemunha de Jeová, por exemplo, representa o ser humano que reivindica na beira do leito o direito de ser agente da sua própria vida e por isso, qualquer que seja a situação clínica da anemia, manifesta convicção de recusa à transfusão de sangue. Ilustra a possibilidade de contraposição a uma conjuntura de conduta recomendável sem, contudo, significar oposição à beneficência conceitual do método terapêutico- nenhuma manifestação pública a respeito da existência de bancos de sangue.

Em síntese, numa situação ligada à própria saúde, a partir de um valor, o paciente Testemunha de Jeová manifesta uma fidelidade à convicção religiosa e  faz uma escolha, uma associação  entre crença, vontade e sentimento que admite um fim associado à religiosidade a ser preservado. No desenvolvimento dos ajustes, o comportamento efetivo do médico responsável pela definição da conduta resulta altamente influenciado pelo comportamento do paciente pela hierarquização do princípio da autonomia.

Bioamigo, a simplificação num Não à transfusão de sangue beneficente do prognóstico clínico embora sujeita a admissões éticas não deixa de colidir com a racionalidade da medicina e, por isso, deve ser equacionada como um conflito no entorno do sentido da vida entre a ciência e a fé, o que admite reflexões sobre os conceitos da ética da responsabilidade e da ética da convicção.

Uma lição é que a aplicação da tecnociência na beira do leito está sujeita a fronteiras que acontecem (a)caso a (a)caso entre o teor da ética da convicção e da ética da responsabilidade. Interagem uma disponibilidade de métodos cogitados para serem aplicados alinhada à ética da responsabilidade, nunca indiferente às realidades da beira do leito, e uma veiculação a desejos, vontades, objetivos e valores do paciente articulada à ética da convicção e por tabela ao alinhamento entre individualidade e autonomia.

Em decorrência destes balizamentos dados pela ética da convicção e pela ética da responsabilidade, a Bioética da Beira do leito preocupa-se em promover reflexões envolvendo complexidades clínicas e morais sobre a possibilidade de contraposições a respeito do sentido de qualidade de vida e do compromisso com a sobrevida, haja vista que cada profissional da saúde reage a sua maneira. Especificamente, porque um uso legítimo da tecnociência pode vir a ser interpretado como uso abusivo, como entendimento de preconceito, discriminação, violência de modo geral ao paciente em determinadas circunstâncias.

A Bioética da Beira do leito preconiza a amplitude de um debate sobre boas práticas na beira do leito que possa ativar representações da tradição da medicina, da sociedade como um todo e suas particularidades e das inter relações entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. No aspecto da função social da medicina, inclui a integração entre o abstrato e o prático, a visão de absoluto e a objeção de consciência. Metaforicamente, intenciona o bom do lápis e borracha para vir a ser um excelente retratista dos interesses envolvidos na situação e assim construir uma imagem que possa emitir sentidos justificados e equilibrados para deliberação.

Pablo Neruda (Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, 1904-1973) nos legou que somos livres para fazer nossas escolhas, mas somos prisioneiros das consequências. Transferindo para a conexão médico-paciente, impacta no pensamento, na emoção e no comportamento de ambos. Põe em evidência efeitos do Tenho que – quer racional, quer impulsivo– como a frustrante sensação de desconforto e o incômodo envolvimento em conflitos.

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