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PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1030- Ética pratica-se (Parte 9)

Um propósito maior da Bioética da Beira do leito é cuidar para que o profissional da saúde não tenha a sensação de estranho no ninho no seu local de trabalho, a beira do leito idealizada. Pensamentos, sentimentos e comportamentos perturbadores do profissionalismo que se espera, contraditórios mesmo, ocorrem quando se chega a este ponto, em geral após uma série de contraposições e especialmente se resumidas como fracassos.

O profissional da saúde, embora cercado por outras pessoas – profissionais, pacientes, familiares -, não raramente, vivencia uma sensação de quebra de sintonia com o sagrado ambiente que é seu domínio por ofício. Entendo que o bioamigo deve ter algo deste tipo impresso na memória, pois é inevitável sofrer reações já que desagradar alguém, desagradar o sistema ou desagradar si mesmo fazem parte da máxima que não se pode pode agradar todos sobre qualquer coisa em todas as ocasiões.

É irracional, pois, crer que mesmo dispondo-se a agradar o paciente no limite do possível, o profissional da saúde consiga evitar ficar vulnerável a qualquer forma de reprovação pelo outro, aliás, nem mesmo tem força de impedir certos não consentimentos, como aqueles em que o arrazoado sobre o Não soa desde o paciente como outra língua. É quando fica à espreita a armadilha da concessão não rigorosamente auto ajuizada, pois nos tornamos reféns da mesma, vale dizer, passíveis de interpretação de infringência ética.

O nível de “nidação” à beira do leito articula-se às decorrências da mesma como um ecossistema, o que admite reverberações da sociedade. A fim de evitar vieses de realidade, a experiência ensina que a mais saudável conexão da beira do leito com a representação social das ciências da saúde inclui considerar precaução ética para o profissional da saúde desaconselhar-se a projetar a tecnociência nem como tecnicista nem como cientificista.

Bioamigo, as interferências recíprocas entre os campos da tecnociência e da sociedade interessam à Bioética da Beira do leito, na medida em que orientações responsáveis do comportamento humano na produção e utilização do conhecimento em sua interação tradição-inovação mostram-se essenciais para a preservação da dignidade humana. O respeito ao direito à autonomia pelo paciente intenciona evitar abusos nestes sentido.

Tensões com valores estão em plantão permanente na beira do leito e induzem sucessivas apreciações com propósitos éticos. É comum na assistência na beira do leito formar-se uma roda viva onde juízos de valor subsidiam permissões, proibições e obrigatoriedades que podem motivar sanções aos profissionais da saúde.

Há a heteronomia de um código de ética que se renova periodicamente e há a autonomia do caráter, do compromisso com virtudes para fazer o certo na hora certa, com os sentimentos certos e pela razão certa, fazendo a caminhada peripatética de Aristóteles (384 ac-322 ac) dar um pit-stop na beira do leito.

Claro, bioamigo, concordo que nem todo profissional da saúde é chegado à filosofia, mas para a prevenção de uma sensação de vidas amargas na beira do leito vale salientar que ética é uma experiência de constituição de um algoritmo moral visando a tomar decisões específicas e dar racionalidade a apreciações morais. A nidação à beira do leito se beneficia.Éticamoral

Conservo muitas cenas da faculdade gravadas na memória. Convenci a mim mesmo que é uma fixação gestacional,  tem a ver com a frequência na mesma faculdade na barriga da minha mãe durante o seu terceiro ano- nasci em dezembro.

Foi na faculdade da Praia Vermelha quando ouvi pela primeira vez que ética não se define, ética pratica-se, dito pelo professor Clementino Fraga Filho (1917-2016) – “… trata-se de uma atividade concomitante às incontáveis horas de cuidado com os pacientes, onde o trabalho em time e o exemplo dos mais experientes são fontes para pensar, sentir e atuar…”. Como diz um provérbio chinês, o professor abre a porta, fica por sua conta entrar ou não. 

Gravei junto o recado que é especialmente válido na beira do leito que uma geração educa e propõe uma formatação à próxima. Soube que a partir dos exemplos, teria de ir adaptando a minha maneira como lidar com limites pessoais e das ciências da saúde, bem como com complementações entre ética (isto não se deve fazer) e etiqueta (isto não se faz).  E, muito importante, nas falhas, o exemplo armazenado que não atuou retornaria à consciência e seria reconstrutivo para os ajustes de atitude.

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