149- Bioética. Reflexões sem contra-indicação e sem adversidade

Felicidade é ter o que fazer. Este pensamento é atribuído a Aristóteles (384 ac-322 ac).

Médicos – e profissionais da saúde de modo geral- têm muito o que fazer, sempre. Se se sentem profissionalmente felizes, cada um deve responder.

O que posso afirmar é que a Bioética contribui para o bem-estar profissional, sem nenhuma pretensão de  encaminhamento a qualquer expressão do Nirvana.

Pois o médico sem a Bioética é capenga. Já a Bioética sem o médico é cega.  A Medicina sem a Bioética é surda. Já a Bioética sem Medicina é sem paladar.

Médico e paciente caminham juntos e enxergam-se corretamente quando atos e palavras mostram-se correspondentes. Medicina e Bioética ouvem-se e se degustam corretamente quando conceitos e princípios mostram-se correspondentes.

Errar a mão e ignorar a prática do consentimento são pecados maiores da beira do leito. As placas de advertência são nítidas: Cautela e Humildade.

Cautela para puxar o arco, mas não soltar a flecha. Uma prudência ligada ao Princípio da Autonomia e balizada pelo consentimento livre e esclarecido.

Humildade para reconhecer que Herrar é Umano. Que existe o mau dia da decisão imprudente ou da realização negligente. Que danos requerem reparações, tanto no sentido da reversão dos mesmos, quanto no de ressarcimentos. E que a mesma beira do leito onde o erro profissional acontece é a mais  pedagógica sala de aula para a reciclagem no sentido do acerto. Lembremos Confúcio (551ac-479ac): “… Podemos lamentar que a rosa tem espinhos, mas podemos nos alegrar porque o espinho tem rosas…”

Errado é não aprender com os próprios erros. Certo é aprender com os próprios erros. Certíssimo é aprender  com os erros dos outros.

Pentágono

Pentágono dos cuidados com a saúde

A Bioética da Beira do leito entende que as boas práticas dependem da mais harmoniosa integração do Pentágono dos cuidados com a saúde (Quadro). Facilita corrigir antes do equívoco concretizado. Faculta reparar ainda no “rascunho mental”.

Vale lembrar que assim como a Natureza tem as gigantescas diversidades da Floresta, do Deserto e dos Polos Gelados, todos com formas de vida, a beira do leito também é plural. Há o paciente sonho de livro, há o paciente hipocondríaco. Há o médico super pós-graduado, há o médico recém-graduado numa Escola com infra-estrutura de papel. Há a Medicina das Evidências, há a Medicina do Achismo. Há a Instituição de Saúde referência, há a Instituição de Saúde ambivalência. Há o Sistema de saúde focado na universalidade, há o Sistema de Saúde focado na mensalidade.

As combinações sustentam o seguinte Penta decálogo sobre a concepção que a arte de viver passa pela ciência médica:

  1. Ciência tem evidências. Ética tem justificativas coerentes.
  2. Ser médico só pode ser compreendido olhando para trás, mas só pode acontecer olhando para a frente.
  3. A beira do leito revalida constantemente o diploma do médico.
  4. O bom médico já começa a tratar o paciente quando presta atenção na anamnese.
  5. Se o exame de imagem está atrapalhando, experimente fazer o exame físico.
  6. Uma sempre certeza arrisca-se ao erro. Sempre.
  7. O médico que bem ensina, ensina o aluno a duvidar do que está aprendendo.
  8. Quebre o segredo da doença do paciente, nunca quebre o sigilo profissional sobre o paciente.
  9. Direcione o foco da atenção para o bem do paciente, desfoque dos bens do paciente.
  10. Saber discorrer 3 minutos sobre um tema não significa sentir-se conhecedor a ponto de sustentar prescrições.
  11. Um exagerado foco em estatística pode não combinar com a individualidade do caso.
  12. Um predomínio da gestão hospitalar pode resultar em carência de leitos para gravidades.
  13. Paciente mal intencionado faz de cada solução um problema ético.
  14. Todo paciente deseja ter o médico ao seu lado, mas nem todo paciente deseja estar ao lado do médico.
  15. Há familiar que pretende o paciente um boneco de ventríloquo para se expressar com viés manipulador.

Seja feliz!