CBio 27- Formação Médica e Vocação de ser Médico

-Chin_An_Lin

Dr. Chin An Lin

Hospital das Clínicas FMUSP 

O advento e o estabelecimento da Medicina Baseada em Evidência como uma ferramenta de constante atualização trouxeram avanços importantes na prática médica. Além de padronizar a conduta, a prática baseada em evidências criou uma rotina de sempre buscara melhor conduta com os menores efeitos adversos, na forma de “guideline” ou protocolos que são resultados de muitos estudos clínicos e muitas metaanálises e revisões sistemáticas.

Na busca por uma conduta mais atualizada, os médicos em formação e os gestores em saúde, além dos gestores de educação médica têm incentivado a prática baseada em evidências científicas, protocolos e consensos de sociedades de especialidades médicas como a única meta a ser alcançada. Dessa forma, o bom profissional médico é aquele que sabe e está familiarizado com as mais recentes atualizações de terapêutica e não mais aquele que é empático, aquele que escuta o paciente e aquele que respeita a autonomia do paciente.

Preza-se mais a parte cognitiva e ignora-se a parte, talvez mais importante da formação e prática médicas: a parte não cognitiva que está baseada na prática vocacional da medicina.

Desde os tempos memoriais, o médico, por ter pouco arsenal terapêutico, mais confortava o paciente que sofria do que lhe administrava medicações que realmente fizesse diferença. Com o passar do tempo, ao ser capacitado tecnicamente, com opções terapêuticas e tecnologia para fazer diagnóstico, paulatinamente, a parte cognitiva passou a ser a parte mais importante na formação médica.

De posse dessa capacitação técnica, o médico passa a gerenciar as condições acerca da saúde do paciente como um agente de plenos poderes e acaba por não dialogar o paciente de forma a permitir que o maior interessado possa participar do processo, na tomada de decisão sobre diagnóstico, terapêutica e prognóstico. O não consentimento do paciente a respeito de tomada de decisão unilateral do médico traz um verdadeiro desafio ao médico, visto que na sua formação, essas questões que não envolvem o treinamento cognitivo não são debatidas e discutidas com profundidade.

Nos consensos de diagnóstico e tratamento tão minuciosamente elaborados pelas sociedades de especialidades, não há nenhum item sobre o não consentimento do paciente. Assim o médico de hoje não sabe lidar com esta situação, pois não está prevista nos “guidelines”.

É urgente que voltemos para a parte não cognitiva da formação do médico. A parte cognitiva se adquire de forma natural, ao expor o estudante em formação médica aos estudos curriculares. Já a parte cognitiva é essencialmente formativa. O estudante em formação necessita ser imerso em um ambiente de aprendizagem onde ele aprenda a tolerar frustrações, respeitar autonomia e seja preparado a ouvir e aceitar o não consentimento do paciente em relação ao plano proposto tanto da terapêutica quanto do diagnóstico.

O médico vocacionado para cuidar do paciente precisa saber ouvir o paciente, precisa aprender a negociar e não impor, precisa aceitar o não consentimento do paciente.