430- Um valor pedagógico para o não consentimento (Parte 3)

past-to-future-walking-little-d-man-white-background-over-textured-floor-31046304

Crédito: https://www.dreamstime.com/stock-images-past-to-future-walking-little-d-man-white-background-over-textured-floor-image31046304

ENTRE O PASSADO E O FUTURO é o título de um livro de autoria da filosofa Hannah Arendt (1906-1975) -Editora Perspectiva, 1968-, obra que o médico que acredita que a ruptura com a tradição compromete a  liberdade e a autoridade deve sorver em pequenas doses, metabolizar e impregnar na consciência profissional. Recomendo e explico!

Selecionei um pequeno trecho – que reproduzo na parte 4 – que se refere à perseguição do homem pela “realidade objetiva” por meio da tecnologia, atitude que nutrida por muita expectativa de domínio do exterior o levará a descobrir – por exemplo, perante uma insatisfação com o (não) realizado-  que poderá resultar em se defrontar apenas com o seu interior (isolamento temperado pela decepção). Na sequência, esboço -em vermelho- uma adaptação em conformidade com a visão da Bioética da Beira do leito.

A motivação da abordagem é destacar uma realidade do cotidiano da beira do leito deste século XXI sob domínio da crescente disponibilidade da tecnologia cada vez mais resolutiva. É um efeito da interpretação de responsabilidade profissional própria do ser médico. Ela tem  natureza essencialmente pró-ativa porque é calcada na tradição da formação do médico (aprende a fazer, não aprende a não fazer) e passou a se defrontar com o moderno direito à autonomia pelo paciente (não precisa fazer mesmo precisando fazer).

Neste cenário, a resolubilidade da tecnologia tem se mostrado tão fascinante que, em face do mundo real, há que se cuidar para evitar o exagero de uma idolatria. Adaptando um pensamento de Henry Kissinger (nascido em 1923), há quem procura ajustar a meta profissional à realidade da situação e há quem procura moldar a realidade da situação à luz da meta. É quando a Bioética da Beira do leito pisa em ovos para combater os excessos de o médico trabalhar com uma imagem clínica preocupado com a auto-imagem, sem soar iconoclasta, apenas exercendo uma contribuição moderadora.

A beira do leito testemunha um certo sentimento de pertencimento pelo médico, algo como um nacionalismo de natureza técnico-científica. É cenário não esporádico que se presta à ocorrência de um sentimento de insatisfação do médico quando, qual um bumerangue, ele se lança ao paciente com uma expectativa de poder cumprir um benefício com fé devidamente sustentada no seu entusiasmo pela excelência tecnológica de que dispõe, crendo que deverá ser aprovado pela utilidade e eficácia, e se vê retornando para si próprio com uma sensação de revés pessoal provocada por um não consentimento pelo paciente. Ela irrompe mesmo sabendo que o comportamento (do paciente) não dependeu dele (médico). Curiosamente, se por um lado, o médico entende que a negativa não fará bem para a saúde do paciente, por outro, também poderá não fazer bem para a própria saúde profissional.

Um componente do extravasamento de emoção é o condicionamento que médicos costumam desenvolver – algo como um imperativo categórico de seguir um fluxograma- uma obrigação e fazer, caso contrário arriscam-se a sofrer acusação de imprudência e/ou negligência e que numa eventual sindicância, poderiam ser indiciados pela suspeita de terem provocado dano ao paciente e seriam a parte fraca. Há um certo clima social neste sentido.

É a situação em que determinado médico olha em sua volta e vê-se num beco sem saída. Ele sente o não consentimento como crítica, e, precipitado pela ansiedade de não conseguir explicar para si tal “aberração”, ele já se vê  acusado por si próprio pela impugnação da consciência de se permitir tolerar o contrário às boas práticas da Medicina – como se estivesse sendo avaliado numa prova sobre o resultado.

Uma  maneira de procurar uma justificativa aliviadora é duvidar da capacidade cognitiva do paciente, pois um atestado de incapacidade transfere  a decisão para o médico. Consultas à psiquiatria são feitas, o que representa uma sobrecarga desnecessária sobre a especialidade, pois o próprio médico responsável pelo caso não costuma ter muitas dúvidas. Não deixa de se enquadrar na chamada Medicina defensiva.

Um dos pontos vantajosos do treinamento em conflitos na beira do leito  que ajuda a convivência do “nacionalismo técnico-científico” com a cidadania é impedir no médico o desenvolvimento desta hipocondria moral, um narcisismo negativo por inadequação associado a sentimento de culpa. Como reforço, é essencial ter em mente que a responsabilidade profissional deve se afastar do conceito de ser acusável ou punível e se aproximar da postura de assumo o que fiz. Outro ponto vantajoso do treinamento é que adquirir mais resiliência  frente ao não consentimento reduz a chance de uma reação de indiferença do médico ante a negativa, que se por um lado, pode funcionar como um seguro da saúde mental,  por outro, é impeditiva de desejáveis iniciativas de paternalismo fraco.

Reproduzindo o filósofo André-Comte-Sponville (nascido em 1952), o homem ao ficar face a face consigo mesmo tende a cair no tédio, no desgosto e no desespero, porque descobre, então, o pouco que é e o pouco que o espera. Assimcabe conjecturar que uma causa da intolerância profissional observada na área da saúde ao direito à autonomia que o paciente tem pode ser um resguardo da saúde mental.

Sustentando-me no psicanalista e filósofo Erich Fromm (1900-1980), seria um narcisismo do médico em nível que extrapola o benigno (aquele que nos move por uma imagem de real competência), um tom acima na atribuição de uma importância para manter o interesse no que faz, assim compensando a perda do aparelhamento instintivo em relação a sua sobrevivência profissional.  Um narcisismo extremado – inflação do ego- é fonte de  incapacidade para se colocar num segundo plano e de perda da sociabilidade. Ele provoca um julgamento tendencioso de maior valor sobre o objeto da vinculação narcisista.

Por isso, a Bioética da Beira do leito enfatiza  que o médico não deve se pronunciar como alter ego à Medicina. Até porque, grande percentual de atribuições de erro profissional não se deve a falhas do médico, mas a inconsistências da Medicina que ele aplica criteriosamente.

continua