276- O valor da desculpa

desc

Crédito: http://www.frasesparaoface.com/o-melhor-pedido-de-desculpa/

Recentemente, publicamos um post https://bioamigo.com.br/enquete-350-sou-medico-logo-devo-refrear-certos-impulsos/ sobre um médico que ironizou a fala num português incorreto do paciente utilizando uma rede social logo após o atendimento.

Palavra proferida é munição atirada, não dá para fazer voltar. No caso, entretanto, foi um tiro pela culatra, o dano recaiu sobre o atirador. As mesmas palavras que embora equivocadas conseguiram fazer o paciente se comunicar com o médico, pois este fez mentalmente a “correção”, quando foram re-emitidas pelo médico, pós-consulta e fora de contexto, representaram uma comunicação violenta para a sociedade em geral.

Noticia-se agora que o referido médico arrependido teve a atitude nobre de procurar o endereço do paciente e ir lhe pedir desculpas diretamente em sua residência, quem sabe até fazer uma revisão evolutiva da doença. http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2016/07/ao-lado-de-mecanico-medico-anuncia-trabalho-voluntario-para-ajudar-ong.html.

Um mau dia foi assim substituído por um bom dia. Houve uma boa gestão de crise. O colega evidenciou possuir nível elevado de inteligência emocional. Ele não se escondeu, assumiu o erro, cuidou para repará-lo e divulgar pela mesma imprensa. Conseguiu registrar que não desejou atingir pessoalmente aquele paciente. Uma foto da visita captou-o descontraído ao lado do paciente nem tanto mas aparentando estar melhor da pneumonia. Como notícia de interesse público, encerrada, até cabendo uma apreciação de final feliz pela transformação de uma tristeza numa alegria catalizada pela demonstração de humildade.

Como aprendizado, a declaração do paciente- a sua lição-  “… Ele veio esclarecer o mal entendido, pediu desculpas e eu desculpei. Ele é uma pessoa boa, que teve um momento errado. Ele é novo e vai aprender com o tempo.  Não foi nada que a gente não possa perdoar…” foi ato de misericórdia. O teor de tais palavras quando encontram um ambiente propício contribui para a reflexão sobre renúncias a vontades de fazer, para o reforço da visão de responsabilidade irmanada à liberdade. Em resumo, a lição é: “não zombe de mim, compreenda-me”.

O passado é irrevogável.  O fato de ter aceito as desculpas não significa necessariamente que o paciente esquecerá o episódio, a maior chance é de ficar marcado na sua memória. Mas como uma parte. Haverá uma outra que propiciará a cessação de ressentimento, o descarte do desejo por punição, por vingança – caso tenham se manifestado.

Não é incomum que caminhos tortuosos levem ao fortalecimento da conexão médico-paciente. Um deles é representado, justamente, por atitudes danosas enfim corrigidas em meio a desculpas com boa-fé. Contribui sobremaneira a boa qualidade do atendimento técnico. No caso, o paciente afirmou:  “… Ele é muito bom médico. Minha patroa também acha ele um bom médico e ele nos atendeu bem…”.

A beira do leito é sala de aula maior do médico, mais enfaticamente, um anfiteatro de lições magnas proferidas pelo professor paciente. Literalmente, o caso ensinou o médico sobre moralidade de comportamentos, sobre expressões de superioridade, sobre resistência que o adulto deve adquirir a impulsos observados quando se é criança. Inclusive, o ensinamento  transformou-se, espera-se, numa cura, na verdade numa vacina produtora de anticorpos definitivos contra ímpetos da natureza do ocorrido. A imunização contra o uso anti-social das chamadas redes sociais.

Parabéns para o médico, parabéns para o paciente. Incorporaram-se ao pensamento de  Mahatma Gandhi (1869-1948): O fraco nunca perdoa. Perdoar é atributo dos fortes.

Não consigo, contudo, estender os parabéns para os responsáveis pela gestão do hospital. Talvez eles ouçam a declaração do paciente: “… Espero que ele volte a trabalhar no hospital de novo…” e revejam a decisão tomada de “cabeça quente” visando à preservação da reputação da instituição de saúde de repente desfavoravelmente exposta na mídia.  Até porque o médico já sofreu a advertência- auto-advertência- que merecia e que poderia estar de bom tamanho para o caso, imediatamente tendo se desculpado. Extensivo às duas funcionárias mencionadas na reportagem inicial!