HM22- Virose carona de mosquito. Uma “iatrogenia” da Natureza em que o Brasil já liderou o controle na América

pandora

Crédito: http://liquidificadordigital.blogspot.com.br/2010/10/um-oi-e-caixa-de-pandora.html

Entomologia, a ciência da zoologia que estuda os insetos, tem importância clínica pelo trabalho de vetor de agente de doença humana a que se prestam alguns destes diminutos e incômodos representantes do reino animal.  Anopheles transmitem a malária e Triatomas a doença de Chagas. O Aedes aegyptii, que está em seu terceiro nome pois já foi chamado de Culex fasciatus e de Stegomia fasciata, é a celebridade do mal atual. Ele, ao mesmo tempo, revolta o povo e atrai cientistas.

Neste início de 2016, ele consegue provocar uma explosiva e disseminada elevação da sensação de vulnerabilidade do Homo sapiens perante a Natureza. Após incluir-se entre os agentes de violência contra a mulher fértil, fez com que fosse atingido  o vermelho da escala de perigo à saúde. A moderação científica perde feio para decisões de responsabilidade pública, pois o duvidoso de hoje sobre o futuro de pessoas que nem foram concebidas parece caminhar célere para uma certeza… ainda hoje.

O silencioso Aedes aegyptii é o inseto que mais zoa no real e no imaginário dos brasileiros, há razões de sobra, afinal  ele está no calcanhar (de Aquiles) de todos como algoz dos que cruzam a sua rota. Na verdade, num crescendo da dengue para a Zika, o seu espaço midiático alargou-se por todo o planeta, um mesmo nome latino em meio a dezenas de idiomas incorporando mensagens corrosivas da liberdade de ir e de vir, usufruir  do bucolismo dos parques e procriar.

Considerando os últimos 100 anos da história da humanidade, verifica-se que este versátil migrante desde a África “reencontrou  conterrâneos” no Brasil: o flavivirus da febre amarela, o vírus da dengue, o vírus da chikungunya e o vírus Zika. Pois, se fosse mosquito sem vírus não seria o poderoso que nos amedronta e pelo impacto visual até que teria alguma chance de ser transformado em personagem da Disney, como aconteceu com o repugnante rato, glamourizado como Mickey. Pois é, dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és.

Porque o vírus é um parasita obrigatório, os quatro acima citados necessitam do mosquito e do homem para a manutenção da espécie. Como já salientado em outros posts – https://bioamigo.com.br/vacina-contra-dengue-ou-modificacao-genetica-do-mosquito/, https://bioamigo.com.br/172-sera-que-nossas-bacterias-provocam-o-que-somos/, https://bioamigo.com.br/207-virus-zika-e-conduta-momento/–  o vírus não “deseja” fazer mal ao ser humano, ele precisa da sequência de hospedeiros para a sobrevivência. “Efeitos colaterais” acontecem, contudo, a doença humana, por exemplo, uma “iatrogenia” da Natureza.

Quando doença infecciosa ocorre, endêmica ou epidêmica, a Medicina precisa intervir, terapêutica e preventivamente, para restaurar a qualidade de vida e resguardar a sobrevida do infectado. Até agora, as coisas funcionavam mais ou menos assim com a dengue, por exemplo, até que uma nova influência virótica Aedes aegyptii-dependente passou a assustar a população mundial: o vírus Zika pode ser um agente teratogênico – causador de anormalidades na formação do ser humano ainda no útero materno. Uma síndrome congênita assim presumivelmente provocada passa a compor os temas da Medicina Fetal.

O conceito de erradicação de doença transmissível  ganhou força  na década de 30 do século XX,  estimulado por vitórias importantes, inclusive no Brasil. Ele foi incorporado à política de saúde pública pelo reconhecimento que todos os cidadãos devem ser igualmente protegidos, pela conscientização que é tarefa tão difícil quanto necessitada da integração de muitos recursos e criou a mentalidade de sempre focar no que ainda falta, mais no que já se conseguiu e o que o sucesso é uma construção de pequenos avanços – qualquer progresso por menor que seja já é muito.

Os esforços de um Programa de Erradicação da Febre Amarela no Brasil que teve o apoio da Fundação Rockefeller – a mesma ligada ao desenvolvimento da Faculdade de Medicina da USP- determinaram, na primeira metade do século XX, uma vitoriosa expansão do controle sanitário sobre o mosquito – que pelo nome lembra a terceira praga do Egito-, efetivada a partir de duas premissas: 1. Apresentava mais custo-efetividade intervir em áreas de real atuação do mosquito do que manter vigilância nos portos;  2. A identificação e valorização da febre amarela silvestre como fonte de persistência da modalidade urbana, ou seja a urbanização do vírus silvestre em locais próximos a florestas brasileiras.

O último surto epidêmico de febre amarela no Brasil aconteceu de 1928 a 1931. Este fato precedeu em poucos anos a elaboração de uma vacina com vírus vivo atenuado da febre amarela. Foi em 1936 que o sul-africano Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina 1951 Max Theiler (1899-1972) teve êxito com uma vacina pioneira contra febre amarela e que, rapidamente, foi testada no Brasil, que passaria a ser grande produtor mundial (Fiocruz).

brasEm 1947, no governo do mato-grossense Eurico Gaspar Dutra (1883-1974), o epônimo da rodovia Rio-São Paulo,  o Brasil  fez uma proposta à Organização Pan Americana de Saúde para que o Pan American Sanitary Bureau fornecesse estrutura internacional para a erradicação do Aedes aegyptii, visando à prevenção da febre amarela urbana na América.

Na verdade, a coordenação internacional, importante sob aspectos políticos, administrativos e financeiros parece ter sido apenas uma moldura para uma atuação efetiva do Brasil que se propunha a liderar uma força técnico-científica de erradicação de um problema comum, evidentemente, imbuído de um enorme interesse próprio- a fragilidade sanitária nas 10 fronteiras (Quadro) e a febre amarela silvestre.

Pouco mais de uma década depois, a situação da erradicação do Aedes aegyptii na América era gratificante (Quadro). Como se pode verificar, há 55 anos, o Aedes aegyptii deixara de ser um problema sanitário brasileiro.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1253857/?page=2

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1253857/?page=2

Fred Lowe Soper (1893-1977)  da Fundação Rockefeller,   um médico estadunidense fundamental para a erradicação da malária no Brasil, e que após a aposentadoria tornou-se membro do National Institutes of Health, Bethesda, assim finaliza o seu excelente artigo The Elimination of Urban Yellow Fever in the Americas through the eradication of Aedes aegyptii, publicado no American Journal of Public Health em 1963, fonte para este post  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1253857/pdf/amjphnation00181-0009.pdf “… Um avançado programa de erradicação do Aedes aegypti nas Américas eliminou quase completamente a ameaça da febre amarela. Para a completa e duradoura eliminação desta ameaça é essencial que os países que  ainda abrigam o mosquito Aedes aegypti mosquito prossigam sem demora com a erradicação…”.

O blog bioamigo vai atrás da história sobre o (des)cumprimento desta lição de casa sobre a eliminação do Aedes aegyptii, pois, a situação de momento parece reviver o slogan criado pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) após percorrer nosso território de 1816 a 1820: “… Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil…”.