135-Liquidificador da Bioética para uma beira do leito homogênea

Essência da Bioética é a compreensão que os processos que determinam as doenças e as suas expressões clínicas não devem ser significativamente influenciados pela cultura de cada região. Contudo, o entendimento de qualidade de vida não pode ser dissociado de normas culturais e de comportamentos e expectativas autóctones.

Doenças provocam diferenças entre pessoas, efeitos que são mais ou menos impactantes na avaliação individual de qualidade de vida. Há reações de extrema insatisfação com restrições mínimas e de conformismo com altas limitações, numa extensa gama de comportamentos  que interagem com possibilidades ou impossibilidades de influência pela Medicina.

Cada paciente, ao lidar com doenças a sua maneira, demosntra grandezas de preocupação que vão desde a hipocondria até a indiferença ante evidências. Urgências/Emergências determinam a priorização aliviadora do sofrimento e beneficente do prognóstico da técnico-ciência, numa perspectiva coletiva, enquanto que a Eletividade admite maior participação da visão de vida individual.

Hábitos na contramão das recomendações da Medicina, como uso do tabaco, excesso de ingestão de gordura e sedentarismo são etiopatogenias universalmente reconhecidas que não causam penalidades civis ou legais ao consumidor. Porém, não identificar um nódulo ao exame radiográfico pulmonar, não considerar a redução de acentuada hipercolesterolemia e não alertar sobre os benefícios do exercício físico, são passíveis de julgamento de negligência e de imprudência profissionais.

Ou seja, cada cidadão pode prejudicar a própria saúde, que a sociedade lhe garantirá amparo para a reversão dos danos, nos limites da Medicina. Não há dúvida que a prevenção é conceito mais recente do que o de tratamento – não importa o quanto este possa se aproximar do niilismo- e que o prazer das referidas etiopatogenias domina, até porque persite agradável se não contraposto por sintomas, fato que costuma acontecer por longo período de tempo.

Recorde-se que suicídio não é crime mas o suicídio assistido por médico e sob critérios é ilegal no Brasil. E que o início da luta em prol da aceitação do conceito de Ortotanásia no Brasil recebeu uma apreciação de indução ao homicídio, embora com o intuito do bem para a terminalidade da vida. A informação que soluções terapêuticas passaram a existir trazem certo relaxamento com medidas preventivas de doenças, como as sexualmente transmitidas. A leitura de uma bula pelo paciente descontrói o que foi composto pela submissão a uma série de exames e e pelo raciocício clínico esmerado, porque as baixas chances de adversidades sobrepassaram a alta probabilidade do benefício. Comportamento este, ressalte-se, que não ocorre pelo mesmo paciente perante mesmo fármaco, quando se encontra internado.

Neste contexto, campanhas pró-saúde, sem nenhuma conotação de eugenia, constituem serviço de utilidade pública com etiqueta Ética desde órgãos governamentais e sociedades de especialidade médica. Vacinação está no topo do objetivo primário e o não-vacinável precisa incutir uma conscientização de “anticorpos mentais” contra o maço de cigarro, o churrasco frequente e o prolongado conforto do sofá.

Neste cenário, relações médico-paciente éticas sustentam-se em ajustes interpessoais. Cada qual emite e recebe informações para análise e ambos propõem-se, idealmente, a uma síntese. Esta noção associada à disponibilidade de tempo para a exercitar é valor da beira do leito respeitosa à técnico-ciência e ao humanismo. A prática do consentimento livre e pós-esclarecimentos é selo de qualidade da beira do leito.

A Bioética da Beira do leito contribui para facilitar a integração de 3 conceitos referentes ao acima exposto:

Episteme- Conhecimento verdadeiro de natureza científica em oposição à opinião infundada.  O chamado Dr. Google pode ser visto sob o ângulo de se tratar de boneco de ventríloquos confiáveis e não confiáveis. Em decorrência, de certa forma, pode-se encontrar textos que satisfaçam a qualquer intenção de leitura.

Endoxous- Opinião aceita por todos ou pela maioria ou pela sabedoria. Este termo aristoteliano acresce peso à episteme, pois agrega o endosso de excelência por experientes respeitados pelo saber. Diretrizes clínicas comportam-se neste sentido e constituem pontos de partida para garimpar a recomendação legítima para a individualidade clínica e humana do caso em questão.

Axioma- Premissa fundamental para uma demonstração, mas que não pode ser demonstrada, pois fruto de princípios inatos da consciência. Há uma apreciação de veracidade, neste sentido, ligada tanto a pensamentos religiosos ou seculares, científicos ou sociais, que tende a rejeitar  saberes científicos como ” hostilidades a individualidades”.

Isto posto, pode-se mentalizar a prática da Bioética da Beira do leito segundo três etapas:

1- Identificar conflitos relevantes. Por exemplo, a Equipe de saúde tem uma posição sobre a atenção às necessidades do paciente, que não é pelo mesmo comungada, pelo menos numa primeira abordagem. Ou vice-versa. Evoluções clínicas malsucedidas costumam provocar desentendimentos de várias naturezas.

2- Esquematizar os componentes das dificuldades ao consenso. A comunicação é instrumento essencial para dar clareza aos focos a considerar. Tolerância a opiniões contrárias e disposição para rever estratégias de condução são atitudes imprescindíveis e que maturam, caso a caso, o desserviço de inflexibilidades. Evidentemente, há conflitos da beira do leito onde a flexibilidade pode ser anti-ética, como no iminente risco de morte.

3- Entender os efeitos e ajustar soluções. Por exemplo, o melhor esclarecimento dos pontos de real dúvida pelo médico pode conscientizar o paciente mais adequadamente sobre o prognóstico da ação e da inação e, determinar o consentimento à recomendação inicial, até mesmo com certas adaptações que em nada comprometem a essência  técnico-científica. Outra possibilidade, é que haja um salutar “novo início”, como na busca de uma segunda opinião. Ademais, pode ocorrer a recusa do paciente ao procedimento aplicável e o ajuste para uma estratégia que longe de ser benefício na óptica do médico, mantém ativa a relação médico-paciente, na base do “possível” sem nenhuma  conotação de imprudência ou de negligência.

Cada encontro médico-paciente tem suas características. Limitações da Medicina, determinantes do sistema de saúde, rigidez sobre valores morais, diversidades de reação aos acontecimentos, arbitrariedades, contradições, pragmatismo, ideologias, valor da vida, circunstâncias eventuais e inesperadas, entre outros de um universo infinito, devem ser considerados ingredientes a serem idealizados  como “pedaços isolados” dentro de um liquificador, aí colocados visando à homogenização.

A Bioética da Beira do leito tem o compromisso de fazê-lo acionar. O resultado será uma solução, quer no sentido de uma mistura, quer no sentido de resolução, idealmente ambos.

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