HM25- Parabéns ao estetoscópio por mais um aniversário firme e forte (1816-2016)

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Neste agosto que ora se inicia, completam-se 190 anos da morte de um imortal. Vale a pena saber um pouco mais sobre a sua invenção, maravilhoso legado que persiste imprescindível para médicos e profissionais da saúde.

Ano de 1816, Paris. Uma gestante em trabalho de parto e sinais de cardiopatia. Excesso de peso, mamas e barriga proeminentes prejudicam o exame físico. O médico com 35 anos de idade, franzino, saúde precária não consegue apoiar o ouvido direto sobre o peito da paciente. O exame do coração era preciso, nem pensar pular a etapa. Ressoavam no ambiente as palavras já centenárias do inglês Robert Hooke (1653-1703): “… pelos sons que os movimentos dos órgãos internos fazem  pode-se descobrir as tarefas efetuadas em vários escritórios e lojas do corpo humano e daí reconhecer que instrumento ou máquina está com defeito…”. Consciência profissional e criatividade acabavam de marcar um encontro indelével na história da Medicina. lae1

O nome da paciente perdeu-se no tempo. O médico tornou-se imortal: René Théophile Hyacinthe Laënnec (1781-1826). Portanto, vamos ouvi-lo (Quadros):

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A “cilindromania” espalhou-se pela Europa, definiu boas práticas e migrou para os EUA. Passados exatos 200 anos, o estetoscópio persiste símbolo vivo da Medicina.

Ele é útil para todas as idades, desde o primeiro choro examinando a nova vida até o último suspiro constatando a morte.

O esteto – já aproveitando a intimidade- simboliza a inovação motivada pelas necessidades da beira do leito,  o afã de honrar a conexão imprescindível entre médico e paciente pela criatividade responsável em certas ocasiões “inéditas” e utilizando-se da “não alta” tecnologia. É sabido que quanto mais o médico dedica-se à beira do leito, mais ele se depara com situações que lhe remete para um improviso análogo ao vivenciado por Laennec. Não faltam exemplos não tão distantes representados por tubos, cola e frascos.

Há um valor humano na articulação ausculto-o, logo o escuto, logo lhe dou atenção, logo procuro uma causa para os seus males, enfim, estou próximo e atuante. Em decorrência, nutre-se a confiança, ampara-se o consentimento livre  pela proximidade sensível que além de tudo esclarece e cria a esperança. Céticos desta relação têm chance de virarem crentes da mesma quando “passam para o outro lado do balcão”, tornam-se pacientes.

Pessimistas, dizendo-se realistas, pregam que o esteto está próximo da aposentadoria, que ele só serviria, ainda, para a medição da pressão arterial e para ornar o pescoço do médico.  Ouço tal consideração há bom tempo. É daquelas que precisam  de uma radical ruptura entre as gerações de médicos para se realizar. Enquanto houver a motivação da sua invenção – um ser humano cuidando diretamente de outro ser humano- o estetoscópio continuará “amigo do peito” e multiuso.

Persiste inalterada a situação da posse de seu próprio estetoscópio de qualidade como  meta de status do atual  estudante de Medicina.  E, o primeiro não se esquece…  

O cilindro de Laennec foi o primeiro instrumento clínico do médico. Nestes dois séculos, mais precisamente nas últimas décadas, uma disponibilização de maravilhosas ferramentas tecnológicas contribuíram para a acurácia do diagnóstico iniciado pela ausculta.  O esteto faz “mentalizar” a anatomia e a alta tecnologia radiográfica disponível acresce realismo.  A parceria em que um revê e complementa as informações do outro é ganho para o paciente.

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Pintura-retrato de autoria de Théobald Chartran (1849-1907)

A interação entre métodos exigentes de expertises distintas é estimulante para o médico moderno. É do médico orgulhar-se do raciocínio clínico, do passo a passo na construção de hipóteses com matérias primas que procuram e acham. O esteto é um instrumento altamente favorecedor deste caminho para a autoestima.

O esteto mantém-se um bem. Instrutivo e profissionalizante, ele é útil e eficaz, exigindo conhecimentos e habilidades semiológicas sobre ruídos e silêncios do corpo humano.  Em boas mãos e bons ouvidos, ele é seguro, não maléfico, não provoca per se adversidades.

Sem saudosismo, como reforço da necessidade do médico ético que trabalha na beira do leito beneficiar a própria imagem profissional pelo reconhecimento da sua capacidade de contribuir ativa e diretamente para a atenção às necessidades de saúde do paciente, transcrevo um trecho do prefácio de um livro escrito há exatos 80 anos, cuja leitura dá uma dimensão do vigor da tradição da Medicina que não deixa de ser sensível à inovação contínua (Quadro).

rizak

 

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