78-Bioética: Desejo e sei fazer. Devo fazer?

esencia-marketingrodinPrincípios e valores do profissional da Saúde determinam movimentos e contramovimentos da tríade: desejo fazer – estou habilitado para fazer- individualizo o que faço.  O exercício moderno da Medicina exige a vontade, a capacitação e o consentimento. Vontade sempre houve, capacitação tem o nível da época e consentimento é a novidade.

Desejo fazer tem dois níveis de entendimento. O primeiro refere-se à intenção do médico de se qualificar para fazer. É um continuum que se inicia no desejo de cursar uma Escola de Medicina, cumprir um currículo de formação profissional, e prossegue numa pós-graduação, numa especialização,  no continuar estudando e se atualizando. O segundo diz respeito a ter gosto pela prática, colocar-se diante da oportunidade para fazer, num ambulatório, numa enfermaria, numa sala de aula, num laboratório de pesquisa. 

Estou habilitado para fazer está intimamente ligado ao desejo e acrescenta as realidades de qualificação de fato acontecidas. Graduar-se,  receber um número de CRM, aprender além da Faculdade, mergulhar numa especialidade, nunca parar de perseguir o grau elevado de capacitação para atender às demandas das boas práticas. Compromisso ético fundamental!

Pelo desejo, habilita-se a percorrer a curva de aprendizado em direção ao retilíneo profissional.  O médico à disposição. Cabeça e mãos preparadas para raciocinar, diagnosticar, tratar, refazer, dialogar, esclarecer … que cada bioamigo acrescente verbos aplicáveis. Médico com vontade de fazer, o que é a soma do desejo de fazer com o movimento requerido para tal.

Individualizo o que faço é parte essencial do profissionalismo. Ele é voltado para a conformidade com as exigências próprias de cada caso. Caso a caso. Faz-se uma consulta por vez, passa-se visita num leito por vez, receitas e prescrições são para uma pessoa, informações referem-se a cada paciente, a alta é de um nome só. Pessoal e intransferível. Como ouvi uma vez, a pasta de dente pode ser coletiva, mas a escova de dente é individual.

A individualização do caso modula o desejo do médico de fazer e dá harmonia à habilitação para fazer, ambos aspectos motivados pela Beneficência. O médico deseja aplicar a utilidade do método e ele está capacitado a torná-lo eficaz. É essencial. Não basta,contudo. Há as singularidades. Que precisam ser respeitadas. O caso é antes de tudo uma pessoa!

A Bioética privilegia dois atributos das singularidades da beira do leito: a Segurança do paciente e a Autonomia do paciente.

O direito à Segurança na aplicação de um método é para todos. O direito à Autonomia é para os pacientes capazes, desde que não estejam no deontológico “iminente risco de morte” – evidentemente, com possibilidade de reversão da situação, portanto, ortotanásia à parte. Esta prerrogativa do paciente faz incursão no seu desejo. Consentir ou não consentir ao que o médico deseja fazer e está capacitado é manifestação da estima pelo método recomendado. Verifica-se forte influência cultural e circunstancial. Testemunha de Jeová e segunda opinião transitam neste contexto.

Em suma, desejar fazer e estar habilitado para fazer sustentam a recomendação técnico-científica validada. Desde a Medicina, desde o médico para o paciente- Iatrogenia, em seu amplo sentido, desapegado da imprópria conotação de erro profissional. Individualizar fundamenta a distinção humana da Medicina. Desde o paciente para a Medicina, para o médico- Humanismo. Ciência, Técnica e Humanismo!

A Ética trabalha os vai e vens do eu desejo, eu posso e eu devo numa expressão  de “É vedado ao médico”, conforme o Código de Ética Médica vigente. A Bioética da Beira do leito propõe-se a uma apreciação didática de potenciais conflitos da tríade, à análise ampla de intervenientes individualizadores e à visão do melhor interesse em cada circunstância de relação médico-paciente.

 

 

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