110-A força motriz do meu paciente, meu médico.

Uma geração educa a outra. Na Medicina, séculos testemunharam a transmissão de fundamentos do como ser médico. Mais recentemente, rápidas e profundas mudanças na relação Medicina-médico-paciente-sistema de saúde- instituição de saúde requereram adaptações, desenvolvimento de novas aptidões e evitação de anacronismos.

Condutas médicas recém-incorporadas nas últimas décadas à beira do leito associaram as gerações recentes de médicos a desafios para a preservação das tradições da Medicina tendo como ponto de referência o valor do legado hipocrático a respeito do respeito ao ser humano.

De modo paradoxal, as gerações atuantes de médico têm mais a oferecer de benefício e menos reconhecimento pela sociedade. Mais disponibilidades de uma Medicina ao encalço da perfeição, mais exigências de perfeição pela sociedade, mais frustrações às esperanças de sucesso pelos pacientes, mais críticas injustificadas ao médico. E as gerações de médicos que agora vivenciam esta atmosfera são educadoras das que estão desembarcando na beira do leito com uma bagagem vista enigmática.  O diálogo entre gerações  cresce de relevância na célere e contínua  modificabilidade do cenário da beira do leito. Um interesse capital da Bioética da Beira do leito.

A vontade compartilhada médico-paciente de satisfazer as necessidades de saúde em suas amplas dimensões de prós e de contras exige escolhas. Escolhas exigem juízos. Juízos são variados e variáveis, provocam consensos e dissensos. Deliberações assumem polimorfirmos em função de individualidades. Resultados da aplicação  consentida dos métodos validados atingem níveis aliviadores ou desesperantes.  A convivência do ser médico e do ser paciente  caminham  cada vez mais exigentes da comunicação humanizada, aquela que aglutina pela clareza e pela sinceridade. Um desafiador ensinamento entre gerações de médico vivendo este século XXI de novidades mais do que diárias de impacto na beira do leito.

Por tudo isso, a subsistência do foco assistencial na realidade do momento do estado da arte- a Medicina é um limite do médico-, com o equilíbrio possível entre a objetividade técnico científica e a subjetividade da interpessoalidade, requer a apreciação do fenômeno da Parcialidade.

A Parcialidade aplicada à beira do leito subentende o compromisso moral do médico em portar-se priorizando necessidades de saúde do paciente sob seus cuidados, disposto a superar eventuais dificuldades para realizações, impostas, por exemplo, pelo sistema de saúde, e até contribuindo para usufruto de facilidades, na medida da Ética. A questão é até que ponto “atitudes preferenciais” com a progressão de pensamento Meus pacientes, o Meu paciente, o Sr. João ou a D. Maria, etiquetadas por três A: Afeição, Afinidade e Apoio, podem ser vistas com valor moral conciliado com o princípio da Equidade.

Recentemente, o filósofo neozelandês Simon Keller  apreciou a Parcialidade no livro  Partiality, editado pela Princeton University Press. Ele apresentou três vertentes:

1- Visão de missão: O médico prioriza o seu projeto de cuidar da saúde dos seus pacientes, o que fundamenta razões para a Parcialidade.

2- Visão de relacionamento:  O desenvolvimento de cada relação médico-paciente provoca valor à mesma e direciona o médico para uma atenção especial ao seu paciente, sustentando a Parcialidade.

3- Visão de Individualidade: O  nome  Sr. João ou D. Maria  soa com  mais valor para a obtenção dos cuidados necessários, implicando responsabilidade profissional na Parcialidade.

Não há dúvida que cada paciente torna-se parte da vida profissional do médico, assim inserindo-se no fenômeno da Parcialidade. O Código de Ética Médica vigente reforça  este Porque são Meus pacientes, porque é meu paciente, porque trata-se do Sr. João e da D. Maria,  quando traz a redação paciente no singular e afirma que a responsabilidade médica é pessoal. Assim, é vedado ao médico: deixar de usar todos o meios disponíveis em favor do paciente, abandonar o paciente e abreviar a vida do paciente. O cumprimento  requer vencer obstáculos!

PentágonoA Bioética da Beira do leito acredita que o uso do Pentágono dos cuidados da beira do leito seja uma plataforma útil para a educação de uma geração de médicos a outra.

No turbilhão de progressos da Medicina e da sociedade, as interrelações do Pentágono sustentam reflexões sobre a ética da Parcialidade como guia de atitudes de fidelidade neste encontro especial de comprometimento e de acolhimento, intenção de circunscrição do bem, que faria sentido para uma relação entre seres humanos quando da aplicação da ciência em reação a humanidades.

O quanto pode ser justificável na beira do leito uma diferenciação individualizada na complementariedade entre a essência do dever ético que rege a profissão e a liberdade ontológica que deseja o que falta? Afinal, ninguém quer ser submetido a um julgamento moral como um mau médico, assim como não deseja ser um mau amigo, um mau familiar ou um mau vizinho.

Há muito valor presente nas expressões o meu paciente e o meu médico!

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